a válvula de Thufir
É mais ou menos a meio do filme. O Barão Vladimir Harkonnen dirige-se a Thufir Hawat, o derrotado Mentat do arqui-rival duque Leto Atreides, e revela-lhe que lhe tinham instalado uma válvula artificial no coração, dizendo-lhe para não se envergonhar, porque “todos aqui têm uma”. Tratava-se de uma marca distintiva dos Harkonnen e o ex-inimigo era agora um deles; um sinal da derrota e da conversão forçada ao campo que, na versão cinematográfica de David Lynch da saga Dune de Frank Herbert, equivale e personifica o Mal absoluto. Não havia retorno possível. “My duke, how I failed you...”, são as suas últimas palavras. No filme, a válvula de Thufir é apenas um pequeno pormenor sem desenvolvimento nem consequência (e no livro, sinceramente, não me recordo, e não o tenho à mão para confirmar). O facto de o personagem surgir no final, titubeante e apagado, ao lado dos vilões derrotados e humilhados pela omnipotência de Mua’dib, concede força à ideia de que sim, o seu caminho foi irreversível.
Para mim, a quem o filme marcou de modo indelével, a válvula de Thufir sempre foi uma questão especialmente perturbante. Trata-se, afinal, de algo que povoa as mitologias, antigas e modernas, de exemplos análogos: uma vez passado determinado limite, assumido certo compromisso ou aceite determinada contrapartida, o personagem está marcado e condenado, por vontade própria, logro ou inconsciência, a um destino malévolo. As histórias de Fausto ou, mais recentemente, da dark side of the Force da saga de George Lucas são apenas dois exemplos de questões que atormentam a consciência da humanidade desde que esta o é e que atravessa as religiões, as éticas e idiossincrasias humanas: somos livres para distinguir o que é certo do errado? qual a linha que separa um do outro? pode-se contemporizar com o mal? É possível a redenção? São questões simultaneamente abrangentes e práticas. Colocam-se em grandes momentos e no dia a dia de cada um. Afloram-me à memória o “o olho por olho faz com que toda a gente fique cega”, o “quem começa por queimar livros acaba por queimar pessoas” ou, ainda, o “primeiro levaram os judeus, e eu não disse nada porque não era judeu...”, belas máximas que se invocam em momentos-chave, em situações-limite, em horas decisivas.
Contudo, nos últimos dias, talvez porque esta época estival concedeu-me espaço e tempo para a reflexão, dei por mim a pensar que a válvula de Thufir é uma espécie de espada de Dâmocles que pende sobre todas as cabeças, tanto nos grandes momentos como nas pequenas decisões, sobretudo porque aqueles só são assumidos como tal a posteriori, e ninguém entende, no momento, a amplitude de pequenos atos, tidos então como inócuos, normais e inconsequentes. Dois pequenos exemplos de que tomei conhecimento, apenas: soube que o i deixou, há semanas, de pagar aos cronistas. Esta medida, pelo que sei inédita, não deixou o jornal sem colaboradores, ao contrário do que se poderia esperar e pensar. Não faltou quem aproveitasse a brecha para subir da blogosfera à imprensa escrita num ato inconsciente, oportunista ou simplesmente destinado a inflar o ego, esquecendo que assim se abre um grave precedente, deflacionário, para todo o trabalho de uma classe; não estarão longe os dias de uma “bolsa de imprensa”, na qual os profissionais da informação venderão o seu trabalho peça a peça, a quem lhes pagar a maior migalha.
Segundo exemplo, e em sentido contrário: um jovem norueguês escreveu uma carta ao homicida de 22 de Julho, dizendo-lhe que falhou, que não tem medo dele e que a semente de ódio que tentou lançar não germinará. Trata-se, aqui, evidentemente, de um outro plano, mas convergente: não se pactua, não se estimula e não se favorece o erro. Podia terminar com Ameneh Bahrami, a iraniana que não quis para o seu verdugo a horrível mutilação que este lhe infligiu: o contrário seria pactuar e estender o mal. Afinal, todos nós temos à nossa espera uma válvula de Thufir. Felizmente, há quem a veja e a recuse.

