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O Homo Litensis

(do lat. Homo, homem + litus, praia)

Parecem bandos de pardais à solta. Outros chegam com pés de veludo. Ocupam a orla litoral, onde quer que haja areia e mar, sobretudo no Algarve. O Homo litensis é uma mutação socio-viral em que todos nós nos transformamos sazonalmente; a sua duração é variável; ora ocorre por umas duas ou três semanas ininterruptas, ora de modo intermitente. Na Europa existe desde a década de 40, quando foram inventadas as férias pagas; por cá, só cerca de 30 anos mais tarde, por razões que não veem agora ao caso. A sua função no ecossistema varia consoante a regulamentação, a mentalidade e a carteira: desde constituir-se como pragas de gafanhotos até contribuirem para a riqueza nacional e para o bem-estar individual, tudo é possível, e tudo está em aberto. 

Um dos aspetos interessantes da nossa encarnação como Homo litensis é que na praia somos todos alegadamente iguais; não há gravatas nem hierarquias, todos molham os pezinhos, ricos e pobres, dão mergulhaços fraternos, igualitários e universais e repimpam-se ao sol, metaforseados em lagartos satisfeitos, e o ciclo recomeça. Alguns deambulam, outros caminham decididamente. É, não é? Nem tanto. Há toda uma antropologia de praia (disciplina que ignoro se existe enquanto corpo organizado de saber) de contornos muito interessantes e que não tenho visto comentada por aí além. Nem falo das múltiplas hierarquias geográficas, como entre a Praia dos Tomates e Quarteira, ou a Praia da Coelha e Armação de Pera, em que o Homo litensis, nas suas variantes opulentis e vulgaris, se costuma cindir.

Numa mesma praia: não se distingue um banqueiro de um caixa de hipermercado só pelo calçãozinho (e sobre este já disse de minha justiça há dias), uma abastada matrona de uma desempregada apenas pela cor, formato ou tamanho do bikini. Mas não é preciso, como fez o pai da Mafalda de Quino, falar com aquele senhor e perceber que ele é médico. O Homo litensis revela as suas nuances de forma mais subtil: quem ocupa a primeira linha de espreguiçadeiras e chapelinhos de palha, alugados a 19 € ao dia, e quem vai de chapéu de sol levado de casa e disputa um pedaço de areia para o colocar; os que se refrescam na esplanada com saladas, mojitos e fish & chips e aqueles que se fazem acompanhar de malas térmicas com sanduíches e minis; quem solicita os barquinhos indígenas to visit the caves e quem dá corda aos chinelos se quiser ver o que está para além do horizonte multicolorido de chapéus iguais ao seu; finalmente, aqueles que, ao fim do dia, tomam o seu lugar nas marisqueiras para degustar a gastronomia local e os que apressam o passo para chegar a casa e ir aceder o lume para assar o entrecosto comprado no Minipreço.

Do ponto de vista comportamental, o Homo litensis divide-se em dois grandes grupos, que atravessam transversalmente as clivagens sociais: os que encaram a praia como rutura e os que a tomam como extensão, isto é, quem usa os dias de férias para cortar rotinas e práticas de um ano inteiro e quem os entende como um prolongamento do mesmo. É por isso que há quem procure sossego e quem busque a algazarra. O mais curioso, contudo, é que a esmagadora maioria das pessoas julga pertencer ao primeiro grupo, mas na verdade faz parte do segundo, respectivamente para si e para os outros: quer descanso mas fala alto e gargalha como se estivesse a ver a Conversa da Treta, pretende repouso mas incentiva ao ruído com música e exclamações ou chamadas dignas de uma emergência pirotécnica, reclama calma mas incomoda todos em redor com uma parafernália de jogos de bola, raquetes, tique-toques, interjeições e bojardas.

Existem ainda formas mais ou menos extremas de contradição flagrante entre férias e rotina, naquela conjugação inconciliável de partilha do espaço público com reserva do campo individual. A mais comum é o completo borrifar nas regras de convivência, já notório de setembro a julho mas flagrante nesta altura. A uma das minhas favoritas, talvez a pulsão do Homo litensis mais vulgar e aceite por todos, assisti eu há dois dias: um grupinho de Homo litensis britannicus (subespécie pandémica por estas bandas) decidiu fazer um belo jogo de bola na praia; maré vazia, fim de tarde, país de brandos costumes mais ou menos Third World onde ninguém parece cumprir regras nenhumas, o ideal. Primeiro traçaram um quadrado com duas balizas. Perfeito. Meia hora depois, o quadrado tinha duplicado de espaço, aos frenéticos gentlemen tinham-se juntado mais uns quantos (de nacionalidade indefinida), o pequeno jogo-de-toques era agora um verdadeiro match que formava uma barreira entre o areal e o mar. Ninguém pareceu muito incomodado com a coisa (e os vigilantes da praia ainda menos), toda a gente contornava cuidadosamente o perímetro como se se tratasse de algo banal: Homo litensis amorfus (ou borrifandus, em latim vulgar), também muito comum. Eu cá achei que não havia grande diferença entre aquilo e a Sonae construir ali um bungalow com portagem e acesso restrito ao mar, mas ok. Comentei mas calei-me logo face à reprovação geral. Também tenho direito a férias, bolas.

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