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os ventos da história

É uma expressão antiga, de um livro antigo, não recordo qual. Remete para a imagem de alguém no meio de algo demasiado grande – uma batalha, uma revolução, a comuna de Paris, as invasões napoleónicas – a tentar, como no meio de um tufão, sobreviver e fazer sentido. Uma imagem épica, vista de longe como a daquelas câmaras que de cima, como do céu, varrem a paisagem e perspectivam a pequenez do indivíduo. 2011, este ano espantoso, é um lugar assim. Não me recordo de um, no meu tempo de adulta consciente e interessada, que acumulasse tantas ocorrências avassaladoras.

 

Houve 2001, é claro, com a sua alteração fundamental da percepção do mundo, espécie de corolário de 1989, o ano do fim do muro de Berlim e do bloco de leste mas também o ano de Tiananmen. Houve, para Portugal, 1974 (mas aí eu tinha dez anos). Houve muitos acontecimentos brutais, tremendos, vitais, a suceder-se no meu tempo de vida. Mas tantos, no mesmo ano, uns a seguir aos outros? Estamos um mês e pouco após o massacre de Utoya e parece ter acontecido há seis – porque entretanto houve os motins de Londres que, por sua vez, “mataram” o escândalo mediático e político do News of the World, o jornal da constelação Murdoch que foi apanhado a escutar milhares de pessoas para fazer “notícias” com base na sua vida privada. Ao mesmo tempo que os EUA, que vemos ainda como a mais poderosa nação do mundo, ficavam a um triz da incapacidade de pagar a sua dívida e mais uma série de nações europeias, agora das “grandes”, viam os seus ratings baixar, abanando ainda mais o euro e lançando ainda mais os governos numa espiral enlouquecida de “austeridade” – enquanto a novela da acusação por sequestro e tentativa de violação de uma empregada de hotel pelo ex-director-geral do Fundo Monetário Internacional continua. Entrementes, na Síria um governo homicida usa tanques e navios de guerra contra civis desarmados, na Líbia a guerra entre o ditador Kadhafi e os que se lhe opõem, com apoio da NATO, arrasta-se há meses, no Egipto a revolução que derrubou (em Fevereiro, lembram-se?) o déspota Mubarak parece azedar e prenunciar desastre e em Israel assiste-se ao primeiro protesto massivo contra o governo por motivos económicos – um protesto que, entre outras coisas, demonstra o quanto a sociedade israelita é diversa da visão monolítica em que alguns tanto gostam de a encerrar. Do Japão, o desastre nuclear que se seguiu ao terramoto e tsunami de Março continua a fazer vítimas e a lançar presságios sobre todas as centrais atómicas do mundo. E, em África, morrem milhares à fome (e, sim, estamos tão habituados a que morram milhares em África, à fome ou por outro motivo qualquer, e que isso nos pareça natural e nada ter a ver connosco, que nesta lista esta hecatombe vem no fim, como algo que se pode quase esquecer por não ter qualquer impacto político ou económico na nossa vida, em suma, por não fazer qualquer diferença “efectiva”).

 

É certo que, se necessário fosse, o 11 de Setembro e o que se lhe seguiu teriam provado o quanto as instituições internacionais, a começar pela ONU, podem ser inúteis. Mas a estonteante exibição de dois pesos e duas medidas face aos casos da Líbia e da Síria (para não falar do Bahrein e da China) é definitiva de tão obscena, como obscena é a incapacidade face a tragédias como a da Somália. Tão obscena como o facto de a hiper-crise de 2008/2009, causada pela ideologia liberal – foi a permissão, nos EUA, da fusão entre banca de retalho e de investimento, defendida pelos liberais, que permitiu a loucura da transformação dos créditos à habitação em fundos especulativos – estar a resultar, após uma primeira fase, em 2009, de reacção pelo investimento estatal nas economias e na protecção social, no triunfo do liberalismo mais descabelado e na destruição do Estado Social que as últimas décadas tinham provado ser uma das grandes conquistas civilizacionais do Ocidente. E, de caminho, no desmantelamento da ideia de União Europeia. Some-se a isso a acelerada degradação dos media, transformados em máquinas criminosas de intrusão e manipulação, e são os alicerces do mundo – o nosso, tal como o conhecemos – a ruir. O blockbuster deste Verão é um filme catástrofe – e nós os protagonistas.

 

(publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 21 de agosto)

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