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O "milagre sueco" não aconteceu

1. Nuno Crato deu uma entrevista à revista Única do "Expresso" do passado sábado. Talvez não seja uma surpresa, mas foi interessante perceber que, nos comentários sobre o sistema de ensino português, não houve espaço para reconhecer alguns ganhos recentes importantes. Para quem, em 2008, afirmava que o PISA é "único instrumento viável para avaliação do nosso sistema" - atenção, o "único" -, é curioso ver que não há lugar a nenhuma referência à evolução do desempenho dos alunos portugueses ao longo desta década (ver gráfico lá em baixo). Podia tê-lo feito como fez aqui, de forma cautelosa, reconhecendo ao mesmo tempo a importância dos resultados e sublinhando a prudência que é necessária para avaliá-los. Quando o fez, não era ministro. Agora, nem uma palavra. Como nada disse em relação à recuperação histórica que foi feita no plano do abandono escolar - que é, lembra aqui o seu colega de Governo, Álvaro Santos Pereira, a variável mais importante para explicar a inércia das desigualdades sócio-económicas na sociedade portuguesa. Não lhe ficava mal. A não ser que perceba que os cortes que vai fazer na educação correm o risco de mandar todos esses avanços para as urtigas. Talvez seja mesmo melhor ficar calado.  

 

2. Entretanto, hoje no "Público" vem um extraordinário texto de João Carlos Espada no qual, em jeito de comentário à entrevista de Crato, se refere ao que chama de "milagre sueco" da educação. Este milagre, jura, redundou nisto: "Os resultados desta reforma têm sido espectaculares. A qualidade do ensino, medida pelos resultados alcançados em exames nacionais, melhorou exponencialmente. Por isso, os ingleses foram estudar o "milagre sueco"."

A verdade é que não há "milagre" nenhum. Não sei muito bem o que João Carlos Espada tem em mente. 

 

3. Esta moda política em torno das free schools suecas recorda-me um episódio que ocorreu em 2008 em Inglaterra. Na altura, aquele que é o actual Ministro da Educação - estava então na oposição -, Michael Gove, apresentou o modelo educativo sueco como o "futuro": 'We have seen the future in Sweden and it works". Ora, não só Gove foi imediatamente desmentido por Per Thulberg, director geral da Swedish National Agency for Education -  ao afirmar que "this competition between schools that was one of the reasons for introducing the new schools has not led to better results. The lesson is that it's not easy to find a way to continue school improvement. The students in the new schools have, in general, better standards, but it has to do with their parents and backgrounds. They come from well-educated families" - como não deve ter percebido que "England is ranked higher than Sweden for pupils' maths and science knowledge. In the 2007 Trends in International Mathematics and Science Study (Timss), Sweden's ranking for science fell further than any other country's. The Swedes have carried out similar international comparative studies, as well as detailed national research, which confirmed a drop in standards". Ou seja, a Suécia estava (e está) atrás da Inglaterra nos estudos internacionais, mas os Conservadores ingleses acham que o sistema sueco é que é o modelo de futuro: hoje foram inauguradas as primeiras 24 free schools em Inglaterra.

 

4. Entretanto, já que falamos de resultados nos estudos internacionais, no caso do PISA, entre 2000 e 2009 aconteceu isto à Suécia (e, para efeitos de comparação, a Portugal): o desempenho dos alunos suecos sempre a descer, e o dos portugueses, depois de uma estagnação em 2006, a subir.

 

 

Percebe-se por que o PISA deixou, para alguns, de ser a referência para a avaliação dos sistemas educativos, não é?

 

5. Não sei se João Carlos Espada está informado, mas os estudos académicos que têm sido feitos sobre a realidade sueca apontam para a necessidade de ser muito cauteloso no momento de tirar conclusões sobre o impacto das reformas nos resultados ou, se quiserem, para a qualidade da aprendizagem:

- em todo o país, apenas cerca 15% das escolas e 10% dos alunos são free schools: não é possível tirar conclusões a nível nacional quando estamos a falar de uma minoria de escolas e estudantes.

- o facto de não haver dados estandardizados tanto dos testes como da informação sócio-demográfica dos alunos a nível nacional - esta está limitada apenas a 30 dos 290 municípios do país; por isso, estudos alargados têm de usar as notas internas das escolas, pouco fiáveis para estudos deste género (a inflação de notas no sector privado é um problema reconhecido) - não permite comparações de óptima qualidade. Que é como quem diz: não há exames nacionais na Suécia.

- os estudos existentes não parecem abranger a segunda metade da primeira década do século, reportando-se a muito poucos anos (tipicamente, entre o fim dos anos 1990 e início dos anos 2000). 

 

 O que sabemos, de forma não-propagandística, não só é limitado, como mostra mudanças muito limitadas. No melhor dos casos - para o argumento liberal -, os estudos mostram que existem pequenas melhorias nos resultados nas áreas onde foram abertas mais free schools (que são também as mais urbanas, mais ricas e onde há melhores professores), mas nem sempre a todas as disciplinas, nem sempre com impacto positivo nas escolas públicas das redondezas, e nem sempre de forma uniforme para todos os alunos (os mais oriundos de famílias mais ricas parecem beneficiar mais); sobretudo, os efeitos que num dado momento podem ser detectados numa certa idade desaparecem dois ou três anos depois (nos mesmos alunos). Um resumo dos estudos feitos sobre a realidade sueca pode ser encontrado aqui; para uma análise mais longa, este livro é particularmente completo).

 

6. Não vale a pena idolatrar ou demonizar o modelo sueco. Nada disto não tem explicações simples, porque não há balas mágicas. Talvez, para a evolução dos resultados do PISA, por exemplo, mais importante que qualquer mudança institucional tenha sido o aumento da imigração de famílias pobres (com origem em países como o Afeganistão), que não têm, naturalmente, o sueco como língua materna. Em 2008, a pobreza infantil atingia apenas 5% das crianças de pais suecos, mas 39% das crianças de famílias de países pobres, sobretudo não-europeus.

 

7. João Carlos Espada termina dizendo que "talvez também nós pudéssemos ganhar alguma coisa estudando o 'milagre sueco'". Nisso tem razão: não teremos aprendido nenhuma lição do que se passa na Suécia sem perceber que o seu modelo de educação está encastrado num país que tem dos níveis mais baixos de desigualdade socioeconómica e de pobreza infantil do mundo, que tem uma invejável rede de educação pré-escolar pública, e cujos adultos - isto é, os pais dos alunos de hoje, que foram formados no tal terrível modelo "socialista" do passado - colocavam a Suécia no topo dos rankings internacionais dos estudos sobre literacia de adultos na década de 1990 e no início desta. Se este modelo funciona neste país - e será muito cedo para sabermos se funciona mesmo -, com as condições de bem-estar material e cultural e de igualdade de oportunidades de que beneficia a maioria das famílias e dos jovens suecos, não quer dizer funcione em países muito diferentes.

 

8. Se a direita quer defender a escolha da escola, faça-o - mas, já agora, que o faça de forma informada, honesta e não-dogmática. Estou certo que estas são virtudes que o professor Espada aprecia.

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