9/11
Na minha família, duas pessoas, ambas mulheres, optaram, a partir de uma certa idade – não sei bem qual, mas terá sido nos trintas ou quarentas – por deixarem de sair de casa. Não viviam sós, não habitavam uma cabana na montanha e eram muito expansivas com as visitas, manifestando perante elas uma alegria genuína pelo convívio que desmentia a hipótese misantropa. Mas ir à rua, nada. Abriam excepções para idas ao médico, ao cabeleireiro, e para uma ou outra viagem “para fora”. O resto do tempo estavam entre as quatro paredes ou à janela, na contemplação do bulício de que se auto-excluíam.
A proximidade com esta espécie de reclusão e uma breve experiência plathiana (d’après A Campânula de Vidro) consciencializou-me do quanto a naturalidade aparente do andar entre a gente ignora o voluntarismo necessário para desafiar o espaço exterior e essa contingência nunca dirimida que são os outros e os seus perigos. São clássicas as narrativas de pânico dos que, passando algum tempo – ou muito – encerrados num espaço limitado, ainda por cima com regras estritas de relacionamento, como as prisões, têm grandes dificuldades em adaptar-se à vida “em liberdade”, com tudo o que ela implica, desde logo o carácter absolutamente aleatório dos acontecimentos, dos encontros e das relações. Aliás, algo tão pretensamente óbvio como caminhar na rua pode ser um suplício -- há demasiado movimento, demasiada luz, demasiados imponderáveis. Tudo é imponderável, claro; mas quando estamos na total desprotecção e largueza do mundo essa evidência pode ser paralisante (ao ponto de existir até uma patologia denominada para isso, a agorafobia).
Se no meio de uma selva ou de uma savana, numa nave espacial invadida por aliens, numa cidade enxameada de zombies ou num pós-apocalipse qualquer se espera que avancemos pé ante pé, dedo no gatilho, o pacto civilizacional faz-nos desprevenir toda a precaução e partir do improvável princípio de que ninguém nos quer mal, que não vai haver maníacos homicidas de catana a ceifar membros e cabeças por desfastio ou gangs de motards à Mad Max nem seremos vítimas de qualquer malfeitoria menos arrevesada, tipo assalto, agressão sexual, insulto, ou a proverbial observação desagradável. Não pensamos nisso, ou tentamos não pensar, de cada vez que transpomos a fronteira entre o espaço que consideramos nosso e o que é de todos.
A quem tem sempre presente o risco implícito costumamos chamar paranóico. Mas talvez nós, os citadinos que não hesitam em mergulhar no corpo a corpo do metro ou do autocarro, que se sentam no escuro do cinema ao lado de desconhecidos, que atravessam ruas na crença de que os carros vão parar nos vermelhos e levantam dinheiro no multibanco sem guarda armada, sejamos o oposto igualmente extremo disso. Há um acto de fé inconsciente (e olha o pleonasmo) no nosso quotidiano, um heroísmo distraído, doce, em cada passo. Sim, cremos na civilizada convivência, na fundamental beatitude dos nossos semelhantes; sim, acreditamos que é possível viver em paz, e que é isso que todos queremos. Sabemos que, mesmo com Hobbes a garantir o contrário, não há polícia nem forças armadas nem leis e penas que cheguem para certificar isso; é uma decisão de cada um que permite esta trégua. Sabemos que pode mudar tudo de repente – mas na verdade não, não sabemos, não, não queremos saber. Confiamos por princípio, porque desconfiar por princípio, conformarmo-nos com a ideia de uma ameaça permanente, generalizada, é o inferno.
Esconjuramos nas histórias de faroeste – de que as novelas de Cormac McCarthy são o expoente cruel -- o avesso dessa tranquilidade nem sequer calculada. E em dias como 11 de Setembro de 2001 damo-nos conta de viver um milagre permanente. Neste décimo aniversário, celebremos isso: o pacto que nos une, a nossa determinação de vivermos juntos, misturados, desarmados, ombro a ombro, e, quando necessário -- sempre que necessário, para defender esta que é a mais preciosa e fundamental das nossas conquistas, a rua livre, pacífica, de iguais -- costas com costas.
(publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 11 de setembro)

