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Uma oportunidade aberta pela crise europeia

Uma das escassas coisas boas da presente crise é que, pela primeira vez, a política europeia ocupa o lugar central na discussão política europeia.
Trata-se de uma grande mudança. Até há pouco, as opiniões públicas nacionais encontravam-se quase inteiramente focalizadas em matérias de política interna. Por um lado, as questões europeias permaneciam reservadas a uma restrita elite de políticos, diplomatas e, em menor escala, de gestores de empresas transnacionais. Por outro, os eleitores pediam aos políticos locais responsabilidades pela sua incapacidade de resolverem problemas que, verdadeiramente, não tinham poder para resolver.
Esta situação era duplamente perigosa, porque minava a democracia no interior dos estados-nação ao mesmo tempo que inibia a emergência de uma democracia autêntica ao nível europeu.
A situação melhorou um pouco, mas não necessariamente no sentido mais desejável, porque a visão política hoje dominante tende a opor povos a povos: alemães contra gregos, portugueses contra finlandeses, britânicos contra franceses e por aí fora.
Procura-se fomentar a ideia de que os países diligentes estão a ser obrigados a pagar a fatura dos países desleixados. Parece assim normal que os alemães, os austríacos e os holandeses se sintam insatisfeitos por terem que pagar as dívidas dos gregos, dos portugueses, dos irlandeses, dos espanhóis e dos italianos.
Nada disto tem fundamento, pois o chamado socorro aos países periféricos (na verdade empréstimos que cobram juros nada meigos) pode igualmente ser visto como uma ajuda de emergência aos bancos dos países centrais que se encontrarão em apuros casos ocorra uma ruptura de pagamentos.
Além disso, a ajuda de que os países com défices persistentes mais necessitam é que os países com excedentes persistentes abandonem as suas políticas mercantilistas irracionais que hostilizam a lógica da União Europeia e inviabilizam o funcionamento da zona euro. Pondo as coisas de uma forma mais direta: não precisamos de socorro alemão, precisamos que os salários alemães congelados há uma dúzia de anos aumentem, que os impostos baixem, que o consumo e o investimento aumentem e que, por decorrência, as importações aumentem e o excedente comercial baixe.
Quem se opõe a isto? Basicamente, o Partido Popular Europeu, que atualmente domina a grande maioria dos governos europeus, o conselho europeu, o Parlamento Europeu, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu. Para que a democracia europeia funcione falta apenas que disponhamos de uma maneira de derrubarmos a orientação política que agora domina a União através do voto.
Para isso, é indispensável que o conflito entre povos seja substituído pelo confronto entre partidos com diferentes opções.

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