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jugular

do desencantamento

Há um primeiro momento. Aquele em que olhamos pela primeira vez para alguém e sucede aquilo que se costuma designar por “reconhecimento”. É como se aquele rosto, aquele corpo, aqueles gestos, a forma como segura no cigarro ou aperta os lábios numa momice, o levantar do queixo ou o peso do olhar estivessem inscritos numa memória qualquer, códigos à espera de decifração cuja chave estivesse, desde sempre, connosco. 


Depois há os outros todos. Os momentos. Aquele em que decidimos -- e decidimos sempre, por mais que nos pareça que nos deixamos levar, que não pensámos, que não ponderámos tudo, que foi num ai -- se avançamos ou não (e lembrar para sempre, evidência de um futuro outro, todos os que não ousámos, como lembramos os que temos percorrido). Aquele em que nos torturamos na dúvida: há do outro lado uma chave para o nosso código, ou apenas inércia e a compreensível delícia de ser objecto de desvelo? O momento glorioso em que o sangue se acelera na certeza de que sim, fomos reconhecidos, e sim, talvez. E o seguinte em que, sem ir mais ao baralho, aceitamos expor a nossa mão e ver a do outro.

É a partir daí, quando se torna mesmo perigoso, quando tememos ficar sem rede sobre o abismo, que respiramos fundo. Há esta margem e pode haver outra, mas no meio uma ponte Indiana Jones, verga e vertigens sobre um rio de jacarés. Já passou a valsa lenta da corte, a alegria da conquista. Já trazemos no sorriso, reificados no nosso encanto, uma certidão de vitória. Há então uma manhã -- é sempre de manhã, não é? – em que tudo o que nos surgia magnífico, exacto, sem mácula nem reparo, arranha, abre fissuras. Estamos a tomar o pequeno-almoço ao sol e de súbito o torso que antes viramos denso e liso antecipa a decadência da carne velha; urgem umas visitas à pedicure, o hálito ressuma ao jantar de ontem. Coisas pequenas, mesquinhas, ridículas, cómicas; inevitáveis, banais, naturais. Mas a falha num dente que fora idiossincrática de súbito é só isso, um dente com uma falha; as unhas mal aparadas que eram blasées agora são só desmazelo. Sapatos errados, a cor impossível de uma camisa, um cinto sem explicação. Como se num feitiço aziago recuperássemos de uma miopia avançada ou, lázaros erguidos de um sono feliz, caminhássemos, trôpegos e encandeados, numa luz impiedosa.

O que é que muda, porque é que muda. Ninguém para responder, nem nós, nós jamais. Só sabemos isto: que há um momento em que queremos fugir, o momento em que num frenesi procuramos tudo o que nos possa livrar da armadilha, da travessia incerta, vertiginosa, a que nos vemos conduzidos. O momento em que queremos deitar fora a chave, denunciar o código, despedir o sortilégio, e, no calor do desencanto que é descer à terra, na maior parte dos casos, conseguimos. Para, no meio do desapontamento – porque queríamos e não queríamos, não queríamos e queríamos -- nos congratularmos: não era ainda, não era nada, era engano.

Às vezes, poucas, muito poucas, quase nenhumas, ficamos. Tentamos. Avançamos. E em muitas dessas poucas para, um pouco ou muito mais à frente, descobrir que afinal não, que é preciso, na ponte estreita e balouçante, dar meia volta e regressar, passo a passo, sem olhar para baixo. Mas esse nojo, esse fastio vem sempre. Talvez se chame sobrevivência, como na canção de Madonna (“Up and down and all around, it’s all about survival”); talvez seja só a liberdade a fazer pela vida e, quase sempre, a ganhar.

 

(publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 9 de outubro)

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