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Respeito.




Recente classe média, ainda há pouco andavas no campo, as mãos grosseiras, ainda ontem vinhas do baixo que mais baixo havia em Portugal a preto e branco. Uma porcaria de classe atirada para o canto do preconceito, carregada de preconceitos como comidinha para a boca e a cada família remediada que é este o teu passado recente, havia um pobrezinho à porta, ainda mais triste, domesticado também, a quem se entregava a carcaça rija com o sentimento do dever cumprido, tínhamos de ser uns para os outros. A herança do homem das botas é ainda mais dura: perdura. Vê-se nas linhas dos rostos de quem passa, na forma como uns olham para os outros e para todos, de uma forma geral. Lê-se nos livros, apanha-se nos jornais, na pintura, nos filmes. Mesmo os intelectuais, mesmo os aristocratas, até os das profissões liberais têm consigo a pequenez imposta pelo país onde nasceram. Agora que está na moda salvar Salazar, como em tempos abriam croissanterias em cada esquina, lado a lado, convém lembrar que Portugal era, há menos anos que os que levo de vida, um país miserável, nojento, fechado, cor de burro quando foge e quantos foram os que fugiram, a salto, para escapar à guerra? Muitos. Quantos foram os intelectuais obrigados a calar as ideias, a escrever direito por linhas tortas? Quantos livros proibidos? Quantos presos por pensar diferente, vamos ser verdadeiros, apenas porque pensavam? Quantos filmes não se viam e que todos, por ordem de uns poucos, não tinham direito a ver. Para aqui fechados neste canto, pobre classe média é daqui que tu vens. É esta a tua origem, pobre origem. Não eram os pobres mais capazes que estudavam e iam, por assim dizer, longe, mas apenas os que o regime seleccionava, obedientes, os filhos da nação timorata que se nos meteu dentro da pele. Entranhada a vergonha, o medo do ridículo no corpo hirto das mulheres de classe média, frias, frígidas, esta infelicidade ainda se vê em tanta pessoa jovem. A vida das mulheres portuguesas, por exemplo, é de ontem com o passaporte onde o nome do marido se sobrepunha. Aqui, tudo ainda vem daqui. Pouco ou quase nada está livre da culpa que encolheu os portugueses, durante quantos anos? Quantos anos para se livrarem disto tudo? A classe média portuguesa, novamente apontada a dedo, saiu para a rua, confusa, sem perceber, ainda, a quantas anda. Palavras escritas em cartazes desenhados à mão onde se descobre, afinal, a mão dos dedos grossos que trabalhava o campo. A mão obediente, reverente e obrigada que assinava por baixo a garantir que nunca fora do contra. É esta a tua origem, classe média e só pelo facto de saíres à rua que durante tantos anos não te pertenceu, tens o meu respeito.

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