Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

jugular

A tirania de um príncipe numa oligarquia não é tão perigosa para o bem público como a apatia dos cidadãos numa democracia*

Pelas razões que se tornarão aparentes ao longo do post, recupero um post que escrevi há ano e meio, adaptando-o ligeiramente à espuma dos dias.

 

No final do século V a.C., Atenas viveu uma profunda crise económica e política devido à longa guerra do Peloponeso. À rendição de Atenas, em Abril de 404, seguiu-se um golpe oligárquico apoiado por Esparta. A oligarquia que, com o apoio das tropas espartanas, fez cair a democracia ateniense ficou conhecida como a Tirania dos Trinta. Embora a democracia tenha sido formalmente restaurada pouco depois, em 403, o populismo retórico da aristrocracia fez crescer a insatisfação dos cidadãos com a crise económica. A aristocracia culpou a democracia pela crise vivida e exigiu um governo forte que permitisse o retorno à antiga glória e ao poder atenienses. Com a confiança no regime seriamente abalada, no início do século IV a.C. os cidadãos deixaram de participar na Res Publica o que levou a que fossem remunerados os que condescendessem a comparecer às sessões da Assembleia. A Assembleia tornou-se assim o ponto de confluência dos ociosos, dos demagogos e dos cidadãos que nela viam apenas uma forma de subsistência. Décadas de demissão da cidadania por parte dos atenienses e de retóricas ocas por parte de quem queria o poder pelo poder tiveram como consequência que, no final do século IV a.C., a tirania oligárquica vingasse.

 

É desta época conturbada que data uma das obras mais maduras de Platão, Górgias, de que é especialmente emblemático o Diálogo entre Górgias e Sócrates em que ambos discorrem sobre as virtudes relativas da retórica e do conhecimento técnico. Sócrates e Górgias concordam que a maioria dos cidadãos é incompetente para tomar decisões fundamentadas na justiça e na política pública, mas divergem no que se deve usar para influenciar os cidadãos nas suas escolhas. A «persuasão que gera a crença», a arte da retórica, é a escolha de Górgias. Para Sócrates,  «Quando os cidadãos se reunem para nomear oficiais médicos, construtores navais ou qualquer outra classe profissional, certamente não deverá ser o orador que os aconselha então. Obviamente, em todas as eleições desse tipo a escolha deverá recair sobre os melhores especialistas».

 

Ou seja, para Górgias, a maior virtude da retórica ou «arte dos discursos» é ser um meio eficiente para atingir o poder. Para Sócrates, o poder baseado na habilidade para produzir persuasões que são crenças e não conhecimento não pode ser boa coisa, porque, «se pela retórica é possível persuadir sem ter saber, como pode transmitir o saber quem previamente o não possuir

 

Penso que nesta altura das aberrações políticas com que temos sido mimoseados, não há quaisquer dúvidas de que o Governo de Portugal®, está determinado em mostrar que tinham razão não só os luditas mas especialmente Górgias,  empenhando-se em matar quaisquer veleidades reminiscentes das posições de Sócrates (no pun intended) de que deve ser o conhecimento técnico e não crenças infundadas a suportar as decisões políticas. E todos deveriamos saber quais são as consequências de políticas assentes apenas na arte dos discursos e em guerras da propaganda...

 

*Charles de Montesquieu

Comentar:

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Arquivo

Isabel Moreira

Ana Vidigal
Irene Pimentel
Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Fazem me rir

    So em Portugal para condenarem um artista por uma ...

  • Anónimo

    Gostava que parasses de ter opinião pública porque...

  • Anónimo

    Inadmissível a mensagem do vídeo. Retrocedeu na hi...

  • Anónimo

    "adolescentes e pré-adolescentes pouco dados à int...

  • Anónimo

    apos moderaçao do meu comentario reitero

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

Links

blogs

media