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jugular

entre os escombros (com dedicatória)

Acumulamos coisas. Às vezes parece que a vida é isso mesmo: o acumular de coisas. Móveis, quadros, aparelhos, bugigangas, livros, discos, papéis, roupa, brinquedos. A casa de alguém – alguém com casa, naturalmente --  tem sempre um armário cheio de monos, um quarto repleto de inutilidades, coisas que para ali ficaram à espera de uma resolução, de uma limpeza, de um destino outro.

 

Há casos desesperados: tenho uma amiga que convencionou um espaço interdito na casa dela, onde despeja tudo aquilo a que não sabe o que fazer. Chama-lhe o quarto do escombros. Tem de tudo: jornais e revistas antigas a que ela acha que vai ainda dar uma olhadela (nunca o fará, naturalmente), roupa que não usa mas que não se decide a deitar fora, presentes que nunca tenciona usar, móveis partidos, todo o género de bodegas.  

 

Estes espaços são uma espécie de permanente censura materializada: fechamos-lhes as portas para não os vermos, para não nos lembrarmos de que existem, que temos aquilo para resolver e que por quanto mais tempo adiarmos a acção mais difícil vai ser concretizá-la. Fechamos-lhes a porta para impedir que aquele peculiar odor a velho e a empoeirado contamine o resto da casa, da existência e nos faça encarar o tempo que passa, por aquelas coisas como por nós.

 

No modo de vida actual, dos apartamentos exíguos e “sem arrumação”, este rasto da vida passada é um fardo impossível. Entre os sótãos das casas de campo e as arrecadações dos prédios contemporâneos, os apartamentos citadinos dos últimos séculos não previram a acumulação normal de estafermos. Não previram a humana incapacidade de ruptura que nos faz hesitar, resistir, ante a decadência das coisas, a sua desadequação superveniente – já nos serviram e deixaram de servir, ou fomos nós que deixámos de lhes servir, que já não servimos? Seja como seja: não temos espaço para a memória materializada do bebé chorão que dormiu connosco dos dois aos dez. Não há lugar para os armarinhos de madeira pintada da roupa das bonecas, para o serviço de chá de porcelana que a avó trouxe de Espanha há 40 anos, nem para aquelas calças de pregas de cós impossivelmente alto dos anos oitenta ou para os arquivos acumulados em anos de reportagens sobre um assunto qualquer. Não há espaço para o lustre partido nem para o relógio de parede que não funciona nem para o barco pneumático que está algures furado, para o remo de madeira que usámos numa canoa de índio no mar algarvio, para a coleira encarnada que comprámos para o cão. Não há espaço para as casas que construímos em Lego e cartão, para os presépios de barro que levávamos dias a montar, para os diários da adolescência que nunca mais leremos (quem é aquela pessoa que guardava bilhetes do Quarteto e se apaixonava à distância por gente com quem nunca falara?), para os trabalhos da faculdade. Não há lugar.

 

Às vezes, e esse às vezes deve ter a ver com a idade como com um penchant para a nostalgia e para o fatalismo, olhamos para os nossos objectos com uma presciência estranha: hão-de sobreviver-nos, hão-de ser para outros a talvez incómoda, talvez demasiado espaçosa memória de nós, hão-de ser avaliados e distribuídos como avaliámos e distribuímos a memória de outros. Alguém escolherá entre as nossas coisas o que merece a pena guardar e o que é lixo, alguém decidirá por nós.  É uma estranha forma de sobrevida, talvez a única disponível: uma fotografia antiga, um móvel na casa de um neto, uma carteira de lagarto na mão de uma sobrinha, cartas de amor numa gaveta.

 

(publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine, algures entre janeiro e fevereiro de 2009, e republicado agora, a pedido)

 

 

 

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