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Papandreou, o bom aluno antes do desespero

Papandreou abandonou oficialmente o cargo de Primeiro-Ministro grego. Sai sem glória, para não dizer humilhado. A história dará provavelmente razão a Papandreou - dificilmente aquilo que foi imposto aos cidadãos gregos em troca do perdão da dívida poderá ir para a frente sem ser legitimado de forma inequívoca. É verdade que a novela em torno do referendo foi uma trapalhada, mas parece-me que foi mais fruto do desespero do que do cinismo ou da ausência de savoir être político. Papandreou intuiu, provavelmente com razão, que as pessoas precisavam de se pronunciar muito claramente sobre o que querem para o futuro. Daqui a alguns meses, se o sistema político grego implodir (como pode efectivamente acontecer, se as pessoas perceberem que ninguém as representa e que o país é simplesmente governado pela troika desde Atenas), talvez compreendamos verdadeiramente o acto de desespero de Papandreou.

 

Papandreou abandona com a imagem do incumpridor - daquele que andou a fugir à troika e, imagina-se, arrastou o país para uma recessão impensável há pouco tempo atrás. Há um ano, pensava-se que 2011 fosse o ano de viragem da economia grega, e que a queda do PIB não fosse além dos 2,6%. Em Dezembro de 2010, a estimativa foi actualizada para uma queda de 3%; em Julho passado, a estimativa já era de -3,8%. Em Setembro último, a estimativa do FMI cifrava-se nos -5%. E nas projecções de Outono da Comissão Europeia publicadas hoje, estima-se que a queda do produto grego se cifre nos 5,5%, e o mesmo documento projecta para 2012 uma nova recessão de 2,8%, quando em Julho passado se estimava que a economia grega voltasse a crescer já em 2012 (0,6%). O desemprego, que nos sucessivos relatórios do PAEF se prevê que atinja os 15% em 2012, salta para 18,4% na previsão de Outono da Comissão Europeia (valor que se mantém em 2013). Se isto não é uma economia em queda livre, não sei bem o que é.

 

Para a história ficará um facto que poucos sabem hoje: que Papandreou faz mais do que qualquer troika. Antes da Grécia ser obrigada a pedir ajuda à Bruxelas, o governo grego já havia concretizado medidas que representavam 5,5% do PIB. O resto, cerca de 3,5%, veio no segundo semestre de 2010. No total, foram 9% do PIB retirados à economia. Está tudo no gráficos seguintes (na página 22 do documento relativo à 2.ª revisão de programa de ajustamento grego, de Dezembro de 2010). No da esquerda, vemos a azul escuro o que Papandreou já tinha feito na primeira metade de 2010, antes da troika. No gráfico da direita, vemos que 2010 era o ano do grande ajustamento - mais de metade dele produzido antes da troika.

 

 

 

Claro que este gráfico ficou desactualizado. Os valores de consolidação orçamental necessários para 2011 e para os anos seguintes subiram à medida que a economia grega foi caindo na espiral de que não se sabe quando sairá.

A direita diz que a Grécia está assim porque não cumpriu o memorando. Isto é falso, e pergunto quantos leram os documentos produzidos pela troika para afirmar isto (disponíveis aqui (procurar nos anos de 2010 e 2011)). As dificuldades sentidas pelo executivo e pela administração pública grega eram mais do que previsíveis (sobretudo défices institucionais de concretização de reformas intrinsecamente difíceis, falemos da Grécia, da Alemanha ou da França), mas elas não são a causa do aprofundar da recessão económica nem da incapacidade de cumprimento do défice - exceptuando, neste caso, a incapacidade de obter as receitas fiscais inicialmente previstas, que já tinham ficado 2% do PIB aquém do previsto em 2010. Mas isto fica para outro post.

 

 

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