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Prelúdio de uma resposta

Na audição ao Governador do Banco de Portugal, que decorreu sexta feira na Assembleia da República, eu disse que Carlos Costa não tinha razão quando afirmou que a compra dívida pública por parte dos bancos tinha limitado a capacidade de concessão de crédito à economia*. Carlos Costa chamou-me ignorante, acusou-me de não perceber o conceito de crowding out e mandou-me estudar. Para demonstrar o seu amplo conhecimento nestas matérias, resolveu dar uma pequena aula para esclarecer todos os presentes: um banco pode dar crédito a três tipos de entidades - Estado, Empresas e Particulares -, e como o crédito é escasso, se os bancos concederem mais crédito a uma dessas entidades, então, necessariamente, há menos crédito disponível para as restantes. Esta história é intuitiva, fácil de entender e, admito, aparentemente persuasiva. Só tem um pequeno problema: é falsa.

 

A historieta que Carlos Costa tentou impingir na sexta feira pressupõe, implicitamente, que os bancos só emprestam o que alguém já poupou e que essa poupança é externa, no sentido em que precede, lógica e temporalmente, a actividade de concessão crédito por parte dos bancos. Vejamos o que diz o ignorante Bank of international Setlements (BIS) num paper intitulado The Bank Lending Channel:  

This paper argues that the emphasis on policy-induced changes in deposits is misplaced(...) If anything, the process actually works in reverse, with loans driving deposits. In particular, it is argued that the concept of the money multiplier is flawed and uninformative in terms of analyzing the dynamics of bank lending. Under a fiat money standard and liberalized financial system, there is no exogenous constraint on the supply of credit except through regulatory capital requirements. An adequately capitalized banking system can always fulfill the demand for loans if it wishes to.

O que esta passagem significa é que não podemos olhar para o processo de criação de crédito (nem em termos de volume nem em termos de composição da carteira de crédito) nos termos em que Carlos Costa colocou a questão. (continua)

 

* É importante notar que eu falei apenas da compra de dívida pública, não da concessão de crédito a empresas públicas.

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