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jugular

post com 3 meses de atraso

Vi hoje, finalmente, a Autobiografia de Nicolae Ceausescu e posso, portanto, comentar este post da Shyznogud (reparo formal: o filme não é de Adrian Sitaru, mas de Andrei Ujica). A impressão geral que colhi é desconcertante: não entendo como consegue alguém, que não seja romeno ou que não possua um conhecimento razoável sobre a política internacional das décadas de 60 a 80, perceber o interesse da obra. Provavelmente, ou adormece, ou sai a meio ou escapa-lhe metade. Mesmo a identificação dos personagens tem que se lhe diga: eu identifiquei Dubcek, Brejnev, Imelda, Jaruzelski, para além dos mais evidentes, como Mao, Gorbachov ou De Gaulle. No final, ao passarem os créditos, percebi que me escaparam, entre outros, Gomulka e Jivkov. E isto no contexto internacional, pois no interno fiquei completamente a zero. Seria, aliás, muito interessante pegar nuns quantos espécimens do nosso lote nacional de comentadores, jornalistas e politólogos cá do burgo, sobretudo aqueles mais novos, mais arrogantes, cheios de certezas e que largam sentenças sobre tudo o que é "internacional", fechá-los numa sala de cinema sem aviso e fazer um debate no final, sem cábulas nem internet: as opiniões emitidas seriam certamente de morrer a rir. 

O filme é romeno e destina-se essencialmente a romenos: há nuances, tonalidades, personagens e pormenores que só os romenos entenderão; por exemplo, os excertos sobre terras inundadas e edifícios destruídos reportam-se a episódios de cheias e terramotos que um estrangeiro dificilmente identificará e cujo interesse lhe custará a avaliar. Do mesmo modo, e como notou a Shyz, o início arrastado e longo sobre as exéquias de Gheorghiu-Dej parece-nos excessivo; mas para os romenos ou alguém que conheça ou tenha acompanhado o episódio, provavelmente, não.

Não obstante, é um documento que impressiona. Não digo "documentário" porque, em rigor, não o é: não há uma legenda, uma locução, uma informação extra que permita identificar momentos e episódios. Há, apenas, uma escolha de imagens, colocadas de modo nem sempre sequencial. Quem esteja habituado ao estilo "Canal História", onde tudo é esquematizado, explicado, liofilizado e reduzido a tópicos e "ação", morre de tédio e não pesca uma. Mas a escolha não foi aleatória; há todo um sentido da construção do edifício documental, iniciado e finalizado com o "julgamento" de 1989, e cujo fio condutor (ou, talvez, título alternativo) poderia ser "a realidade segundo Ceausescu": discursos, cenas de quotidiano, atos oficiais, muita propaganda, visitas ao exterior, planos e projetos. Assume-se uma "visão na primeira pessoa" sem se entrar na sua intimidade. Não há louvor nem condenação, apenas um perturbante tom neutro e frio, quase impassível.

Há momentos muito saborosos. Os louvores de Nixon e de Jimmy Carter ou a cortesia de Isabel II são alguns exemplos. Hoje impressiona como foi possível a condescendência e a cumplicidade do ocidente com este regime e este homem. As imagens da omnipresença de Elena são igualmente impressionantes. Há, contudo, dois momentos que me interessaram e perturbaram em especial. O primeiro é o da visita à Coreia do Norte. São breves minutos simultaneamente deslumbrantes e horríveis, assistir a uma demonstração da gigantesca máquina de propaganda totalitária que transformou muitos milhares de homens e mulheres em autómatos sorridentes, sincronizados e reverentes, para louvor e gáudio dos semi-deuses que observam do alto. Como se sabe, parece ter sido esta visita (em 1971) que impressionou Ceausescu e que terá favorecido a inflexão político-ideológica subsequente. Tudo o que se vê antes e depois, os desfiles e as paradas, as odes e as canções, os discursos formatados, tonterias absurdas do maior logro ideológico da História, são pequenos ensaios comparados com o país de Kim-il-Sung.

O segundo é já perto do final, uma espécie de clímax da paranóia, da negação da realidade, de uma grotesca mentira alimentada e prolongada pela monstruosidade do aparelho totalitário e da Securitate: as visitas de Ceausescu a um "armazém alimentar" e a uma "indústria de panificação". Uma vez mais, quem não sabe do resto não percebe nada: o país vivia por essa altura esmagado pelo pagamento forçado das dívidas ao exterior e pela paranóia das exportações, a população vivia na miséria, com lojas vazias e racionamento feroz, mas Ceausescu fazia visitas a lojas cheias e apreciava a qualidade do pão, tudo aparentemente preparado e encenado previamente para que nada faltasse quando o líder chegava. Se era um tirano frio e cruel ou um louco megalómano apartado da realidade por um aparelho que lhe controlava os passos, é uma discussão que permanece. E as discussões sobre esta obra, também. De entre as muitas dúvidas, uma gostava de ver um dia explicada: porque é que Ceausescu acenava de modo diferente com a mão esquerda e com a mão direita; como muito do que se passa no filme, será apenas um pormenor sem importância. Ou não, quem sabe?

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