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Terra Australis II

Exatamente há 20 anos, era eu um mocinho ainda a tropeçar nas lides asiáticas, tive ocasião de escrever um pequeno artigo para a revista "Coral", da Fundação Borja da Costa, que na altura congregava apoios em torno da causa timorense. Tema? O alegado descobrimento português da Austrália. Era então novidade a edição portuguesa da obra de Kenneth McIntyre, "a descoberta secreta da Austrália" e o assunto, em plena época de comemorações, vinha a calhar. Passaram-se 20 anos e eu subscrevo integralmente tudo o que então escrevi. Neste lapso de tempo, pouco mudou: surgiram algumas obras sobre o assunto (de que o exemplo mais recente é o de Peter Trickett, "para além de Capricórnio"), integradas no novo género de literatura mix-histórica que alimenta o gosto pelas "revelações", junto de um público que apenas se interessa pela História assim ensanduichada ou bem coberta de molho mais ou menos spicy, mas com poucas novidades; as dúvidas mantêm-se e o ceticismo também. Há dias, o assunto voltou à baila nas manchetes, com a descoberta de uma peça de artilharia supostamente portuguesa. Sobre a mesma sabe-se muito pouco, mas há duas informações que convinha ter presentes: um contexto arqueológico provavelmente destruído e, por outro lado, entre a confirmação de se tratar de uma peça portuguesa do século XVI e a prova do "descobrimento português da Austrália" vai uma distância do tamanho do mundo, que não permite atalhos. 

O grande problema das "teorias do descobrimento português da Austrália" é que assentam na composição arbitrária de fragmentos informativos frágeis e pouco relevantes, não raras vezes forçando os dados, um pouco como as crianças a fazer um puzzle quando as peças não encaixam. A síntese de McIntyre padecia deste mal, e do mesmo enferma o trabalho de Trickett. Estes trabalhos assentam em dois pilares principais: a cartografia da chamada "Escola de Dieppe" e a famigerada viagem de Cristóvão de Mendonça, em 1521-24. No primeiro caso, os autores carecem de conhecimento específico (complexo e nada fácil) sobre a cartografia da época e fazem leituras "à transparência", tentando reconhecer a Austrália à vista desarmada, por simples comparação de mapas. No segundo, apegam-se a excertos de fontes portuguesas, juntando pedaços, interpretando contextos e preenchendo silêncios segundo a sua conveniência. Para compor o bouquet, juntam alegadas "provas arqueológicas" (o "navio de mogno", etc, a que se junta agora a peça de artilharia). A Wikipédia contém uma razoável síntese sobre o assunto, a que voltarei mais tarde.

Esta temática enferma de um equívoco de base: o "descobrimento". De facto, há uma grande confusão quando se fala do "descobrimento da Austrália" (como de outras paragens, aliás). O que se pretende mostrar exatamente? 1. o continente era habitado, logo, não se pode falar estritamente de "descobrimento" (como o da Madeira ou dos Açores, por exemplo); 2. será "a chegada dos primeiros europeus"? mas porque é que teimamos neste inenarrável eurocentrismo que só valida o que foi feito por mãos europeias? o reconhecimento e identificação da costa, para futura colonização ou reclamação de soberania? então, as viagens holandesas dos inícios do século XVII são as primeiras; 4. tratar-se-á do "fim do isolamento", de uma "descompartimentação"? nesse caso, são válidas apenas as viagens de Cook, porque só a partir dessa altura é que a Austrália foi integrada, ainda que muito lentamente, na "economia-mundo" emergente, do mesmo modo que é um pouco ridículo andar à procura de provas de viagens portuguesas à América antes de Colombo, porque mesmo que tenham ocorrido, não deixaram rasto e não tiveram consequências. E onde param os portugueses aqui no meio? do seguinte modo: não houve um "descobrimento oficial" devidamente assinalado e registado. É inútil, consequentemente, imaginar um suposto "descobrimento secreto" mantido na penumbra nas primeiras décadas do século XVI. Porque não foi revelado num período posterior? A única premissa válida para os portugueses é a assinalada em 2., mas com uma ressalva: ocorreu, muito provavelmente, por mão de privados, mercadores ou aventureiros anónimos, em navios asiáticos (malaios, javaneses ou timorenses), em data incógnita, algures no século XVI.

Não se trata, portanto, de um "descobrimento" no sentido clássico, europeu, do termo: descendentes de portugueses em navios asiáticos... No final daquele século há indícios, rumores, pistas que apontam, de facto, para um vago conhecimento da massa continental australiana. Mas como era uma terra que ficava fora das rotas comerciais asiáticas, nomeadamente do "Mediterrâneo" formado pelo arquipélago malaio-indonésio, sem especial interesse para malaios e javaneses, e como os portugueses seguiam e integravam-se nas estruturas comerciais e marítimas asiáticas, nada os impelia a sair fora do que era conhecido, proveitoso e seguro. Talvez alguém desejoso de mérito, prestígio e mercês, sim, decidisse levantar o véu e "oficializar" informações empíricas e rumores. O candidato mais provável é Manuel Godinho de Erédia, o luso-malaio que reclamou ter sido investido pelo vice-rei de poder e autoridade para descobrir um suposto continente austral. Os seus trabalhos refletem um conhecimento, difuso e confuso, para mais misturado de lendas locais, de uma terra a sul. Mas nada mais se sabe. O resto, e pelo estado atual do conhecimento, é apenas lenha para a imaginação de alguns e combustível para velhas pretensões ego-eurocêntricas (ou lusocêntricas) sobre pioneirismo, descobrimento, primazia e uma "idade do ouro" perdida. 

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