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jugular

esmeralda, o monstro

A história faz parangonas desde Dezembro de 2006. Nos primeiros meses de 2007, após a condenação por sequestro do sargento Luís Gomes a 6 anos de prisão e do pedido de habeas corpus a seu favor que recolheu mais de 10 mil assinaturas, já havia jornalistas a receber propostas para fazer “o livro do caso Esmeralda”. Menos de um ano e meio depois, sendo o destino da criança ainda uma incógnita, aí estão os frutos: a narrativa na primeira pessoa por Luís Gomes, escrita por Patrícia Silva, e uma análise/reportagem de Rita Marrafa de Carvalho e Margarida Neves de Sousa (“Esmeralda ou Ana Filipa – Dois nomes, dois pais”), ambos já à venda, tendo sido anunciado também, para fim de Junho, o livro de Baltazar Nunes, o pai biológico (que se chamará “Esmeralda-sim”), escrito pelo médico Cândido Ferreira. Talvez haja já alguém a preparar uma novela ou um filme.

É normal: Portugal está apenas a seguir uma tendência internacional, a da publicação de livros sobre casos polémicos. E a história da criança disputada na justiça por dois pais é um verdadeiro folhetim, embora por esta altura seja tal o imbróglio jurídico a ela associado que a maioria das pessoas há muito perdeu o fio à meada. Depois, folhetins precisam de bons e de maus, de alegrias e tragédias, paixões e ódios, e de enredos simples – e aqui as coisas não só estão muito longe de ser simples como os bons e os maus, enfim, têm dias. Às vezes, aliás, parece haver apenas menos maus, de tal modo a disputa e a guerra da visibilidade e da empatia sobreleva à questão essencial. Sendo óbvio que todos os adultos cometeram erros neste caso, uns mais graves que outros, um dos mais notórios será o actual estado de coisas: a tentativa, de um lado e de outro, de “ganhar” ou “manter” o troféu, e o mal que isso inevitavelmente faz à criança. Não valerá a pena – nem há para tal espaço – lembrar todos os factores que resultaram na actual situação. Poderemos pois ater-nos ao essencial: um progenitor biológico que apesar de avisado de uma gravidez de que seria co-responsável se recusa a demonstrar qualquer interesse pela criança – chegando ao ponto de em nada contribuir para a sua sobrevivência – até que esta faz um ano, quando por acção do Ministério Público é provada a paternidade; um casal que recebe, “para adopção” e à margem de qualquer enquadramento institucional, uma criança de três meses das mãos da respectiva mãe biológica. As razões de uns e de outro são talvez todas compreensíveis, até desculpáveis. Sucede que está em causa o destino de alguém que não tem qualquer responsabilidade nas acções e razões dos adultos, e a quem é neste momento imposta uma situação dilacerante: ter de, pelo seu comportamento e afectos, escolher com quem vai viver. Aos seis anos, uma criança tem capacidade para perceber que é alvo de uma disputa entre adultos – uma disputa de amor – e que todos estão suspensos dos seus humores e reacções. Nenhuma criança, por melhor fundo que tenha (seja lá isso, o “fundo”, o que for) resiste a fazer de tirana numa história como esta. Se responder mal a alguém, quem é que a castiga? Se fizer uma asneira, quem tem coragem de se zangar com ela? Se tiver um desejo, quem se atreve a não o concretizar? Estamos a ouvi-la: “Já não gosto de ti”. Todas as crianças o dizem -- mas aqui tem um significado diferente. Pode ser acrescentado de “gosto é do meu outro pai”. O jogo, claro, funciona para os dois lados, e tanto melhor quanto os adultos o estimularem, cumulando-a de atenções e presentes. É um jogo perverso, mas não foi ela, a criança a quem até o nome é cindido, que o criou. O monstro processual corre o risco de criar mais que uma imagem monstruosa da justiça -- pode fazer desta criança um monstro. Mas isso é outro livro, outro filme. (publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 25 de maio)

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