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A farsa do BCE

De há uns tempos para cá, vários líderes europeus têm-se dedicado a repetir a tese de que a crise do euro da dívida soberana está a ser resolvida e que podemos mesmo estar num período de viragem. Mario Draghi, por exemplo, em entrevista ao Wall Street Journal, diz o seguinte:

It’s hard to say if the crisis is over. Let us look at the positive changes of the last few months. There is greater stability in financial markets. Many governments have taken decisions on both fiscal consolidation and structural reforms. We have a fiscal compact where the European governments are starting to release national sovereignty for the common intent of being together. The banking system seems less fragile than it was a year ago. Some bond markets have reopened. But the recovery is proceeding very slowly and remains subject of downside risks. I was surprised too that there was no elation after the approval of the package and this probably means that markets want to see the implementation of the policy measures.

 

In the end it seems the greatest risk is lack of implementation. Some measures are directly targeted to enhance competitiveness and job creation. Others foresee a radical fiscal consolidation. The two are very complementary to ensure a return to growth after the unavoidable contraction in economic activity

Ou seja, embora seja prematuro dizer que a crise acabou, Draghi acha que podemos dizer que o pior já passou: os mercados estão a estabilizar, existe um forte compromisso com a consolidação orçamental, as reformas estruturais estão a ser implementadas pelos governos e os bancos estão mais fortes. A situação só não está melhor porque as actuais medidas ainda não foram devidamente interiorizadas por todos os agentes. Enquanto essa revolução económica não ocorrer na sua plenitude, é natural que a Europa não se consiga livrar inteiramente da 'A Incerteza' e de 'Os Riscos' que, embora mitigados, teimam em não desaparecer. Em suma: Mario Draghi acha que a situação está menos má por causa das actuais políticas, e só não está melhor porque as actuais políticas ainda não foram totalmente implementadas.

 

Se Draghi vê sinais de que a actual política está a resultar, então tem de explicar por que carga de água é que, estando a actual receita a ser aplicada desde Maio de 2010 e tendo a crise vindo sempre a piorar, as coisas só melhoraram quando o BCE, em dezembro de 2011, juntamente com uma flexibilização das regras sobre activos dados como garantias em empréstimos, disponibilizou financiamento ilimitado a 3 anos a uma taxa de juro de 1% (o famoso LTRO) ao sector financeiro europeu. Draghi não só não explica nada, como, quando fala das políticas europeias, exclui da lista de políticas relevantes a única política que, de facto, teve efeitos positivos: a do banco a que preside. Esta omissão não é inocente.

 

A austeridade que Draghi e o BCE fanaticamente defendem só tem tido um resultado: agravamento da recessão, aumento do desemprego, queda do investimento público e privado. A austeridade não constrói nada, só destrói. Mas esta evidência é algo que Draghi e o BCE não podem aceitar: a austeridade é necessária por definição. A realidade pode ter destruído a tese da austeridade expansionista, um evidente oxímoro, mas a validade da austeridade, essa, continua viva, agora na versão: a austeridade é necessária, mas não é suficiente.  As reformas estruturais assumem aqui um papel salvífico e redentor: são elas que, no futuro, vão dar sentido ao sacrifício aparentemente absurdo da austeridade do presente. De novo Draghi:

Is there an alternative to fiscal consolidation? In our institutional set up the levels of debt-to-GDP ratios were excessive. There was no alternative to fiscal consolidation, and we should not deny that this is contractionary in the short term. In the future there will be the so-called confidence channel, which will reactivate growth; but it’s not something that happens immediately, and that’s why structural reforms are so important, because the short-term contraction will be succeeded by long-term sustainable growth only if these reforms are in place.

Enquanto o longo prazo não acontece e a sempre prometida confiança não dá sinais de regressar, o BCE não parece ter qualquer pudor em dar dinheiro aos bancos para, no curto prazo, fabricar confiança por decreto, criar procura onde esta não existia e, com isso, inflacionar preços de activos para criar a aparência de normalização. No fundo, a única confiança que realmente existe é aquela que o BCE insiste em manter nas actuais políticas e uma outra que o próprio BCE criou para manter a ilusão de que isto pode tudo funcionar. Ou seja, o BCE está empenhado em transformar uma tragédia numa farsa.

 

No mesmo dia em que emprestava mais de 500 biliões de euros aos bancos europeus a 1%, Draghi garantia que o Estado Social estava morto. Isto mostra que o Estado não está a ser desmantelado nem a reduzir a sua presença na economia. A única coisa que está a acontecer é uma reconfiguração do modo como esse Estado intervém na economia, não do seu poder: em vez de um Estado que redistribui recursos e investe no futuro da sua economia, temos uma instiuição estatal europeia, o BCE, que obriga os governos a recuar nas suas funções tradicionais e a reduzir o volume de bens e serviços que disponibilizam aos seus cidadãos, ao mesmo tempo que mantém vivos os bancos que não emprestam dinheiro à economia. Como escreveu Varoufakis, o BCE está a ganhar tempo (está a manter vivo um sector financeiro moribundo) à custa da esperança (a destruição da economia e do emprego). Perante isto, uma coisa é certa: este novo Estado Social não é sustentável. Por muitos LTRO que Draghi tente criar a ilusão contrário, that which is unsustainable shall not be sustained: não há sector financeiro que sobreviva a desemprego de massas e a uma economia destruída.

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