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Ciência, disse ele

"Fundamentar cientificamente as dúvidas" foi o propósito anunciado.

 

Para além de usar bibliografia antiga - uma indicação da dificuldade em encontrar literatura recente que sustente as suas opiniões? - o Pedro Picoito tem deslizes, chamemos-lhe assim, que não são permitidos a alguém que apela à abordagem científica do tema para provar o seu ponto. É disso exemplo o uso da expressão "identidade sexual" como sinónimo de "identidade de género" e a referência a "tendências homossexuais" e  "grau de homossexualidade". Desafio-vos a procurarem o uso destas expressões em qualquer documento cientificamente sério. Falamos daquilo a que se convencionou chamar orientação sexual, que não é uma tendência nem se avalia em graus ou percentagens. Abstenho-me de comentar a "lésbica activa".

Depois interpreta a seu belo prazer o que os autores dizem. Um exemplo claro está nesta troca de palavras com o Pedro Morgado: "O que os autores dizem é que a criança cresce com a dinâmica relacional e não mimetizando cada um deles. E não dizem que isto ou aquilo é melhor do que aquilo" diz o Pedro Morgado, ao que o Pedro Picoito responde "Sim, é verdade, mas apenas parti dos autores para dizer que a capacidade parental é sempre uma capacidade em relação. O resto já são conclusões minhas.". Apraz-me, há que dizê-lo, ver escrito que são conclusões do próprio e que a capacidade parental é sempre em relação - a relação do progenitor com a criança, faltou explicitar. Mostrar um estudo (sério) que demonstre que as qualidades parentais dependem do sexo do objecto de amor e de cópula dos progenitores está quieto.

 

Para provar o porquê da relação homossexual poder ser "um ambiente muito negativo para o desenvolvimento de uma criança" Pedro Picoito usa estratégias curiosas. Vejamos.

 

1. "Em primeiro lugar, porque os gays tendem a ter relações afectivas muito instáveis", anuncia. Para o provar consegue a proeza de (1) ir buscar um livro de 1973; (2) chamar recente a uma publicação de 1997 cujo objectivo é comparar dois grupos de homossexuais separados pela idade - o que prova a importância que os próprios autores deram à variável "tempo" na avaliação do estilo de vida dos sujeitos das amostras e, consequentemente, à importância de usar bibliografia recente, nestas como noutras coisas - e cujo desenho do estudo e as conclusões em nenhum momento permitem inferências sobre promiscuidade; (3) não apresentar um único estudo comparativo entre casais homo e heterossexuais nem sobre o efeito do número de parceiros dos progenitores sobre o desenvolvimento das crianças. Com isto tudo termina dizendo que não faz "qualquer juízo moral".

 

 2. Avança depois para dados sobre violência doméstica (VD) para provar um maior índice de violência entre casais homossexuais que entre casais heterossexuais, usando, para os homossexuais masculinos, a citação de um livro sem peer review* e para as homossexuais femininas um estudo que mereceu da revisora o seguinte comentário Abuse was as prevalent among lesbian relationships studied here (55%) as it was in heterosexual relationships (37 to 55%). Aqui chegado refere "Sabe-se que as crianças tendem a reproduzir o comportamento violento, dentro e fora da família, dos adultos de referência", esquecendo-se, pela certa, de acrescentar que tal facto é independente da orientação sexual dos adultos de referência. Antes fosse verdade que a VD dependesse da orientação sexual, facilitaria o desenvolvimento de programas de luta contra tal flagelo. Só um aparte para relembrar que se a VD na - e entre a - população homossexual está prevista na lei portuguesa à ILGA, na pessoa do Paulo Côrte-Real, se deve, o que só prova que é uma preocupação sua, porque existe e precisa que contra ela (também) se lute.

 

3. Na procura de sustentação para o efeito devastador da homoparentalidade detém-se sobre de taxas de homossexulidade em adultos criados por casais de pessoas do mesmo sexo - isto como se a homossexulidade fosse um mal em si, note-se. Distorcer as conclusões dos estudos? Não, que é lá isso. Sem mais comentários deixo-vos os resumos dos artigos que refere:

  • Bailey JM et al: "Sexual orientation of adults sons of gay fathers". Developmental Psychology. 1995; 31: 124-129.

The sexual development of children of gay and lesbian parents is interesting for both scientific and social reasons The present study is the largest to date to focus on the sexual orientation of adult sons of gay men. From advertisements in gay publications, 55 gay or bisexual men were recruited who reported on 82 sons at least 17 years of age. More than 90% of sons whose homosexual orientation could be rated were heterosexual. Furthermore, Gay and heterosexual sons did not differ on potentially relevant variables such as the length of time they had lived with their fathers. Results suggest that any environmental influence of gay fathers on their sons' sexual orientation is not large.

  • Tasker F, Golombok S: "Adults raised as children in lesbian families". American Journal of Orthopsychiatry. 1995; 65(2):203-15.

A longitudinal study of 25 young adults from lesbian families and 21 raised by heterosexual single mothers revealed that those raised by lesbian mothers functioned well in adulthood in terms of psychological well-being and of family identity and relationships. The commonly held assumption that lesbian mothers will have lesbian daughters and gay sons was not supported by the findings.

  • Judith Stacey J, Biblarz T: "How does the sexual orientation of parents matter". American Sociological Review. 2001; (66): 174 e 179.

Opponents of lesbian and gays parental rights claim that children with lesbigay parents are at higher risk for a variety of negative outcomes. Yet most research in psychology concludes that are no differences in developmental outcomes between children raised by lesbigay parents and those raised by heterosexual parents. The analysis here challenges this defensive conceptual framework and analyzes how heterosexism has hampered intellectual progress in the field. The authors discuss limitations in the definitions, samples, and analyses of studies to date. Next they explore findings from 21 studies and demonstrate that researchers frequently downplay finding indicating difference regarding children’s gender and sexual preferences and behavior that could stimulate important theoretical questions. A less defensive, more sociologically informed analytic framework is proposed for investigating these issues. The framework focuses on (1) whether selection effects produced by homophobia account for associations between parental sexual orientation and child outcomes; (2) the role of parental gender vis-à-vis sexual orientation in influencing children’s gender development; and (3) the relationship between parental sexual orientations and children’s sexual preferences and behaviors.

 

4. Por último a cereja em cima do bolo ("talvez o mais preocupante", diz Pedro Picoito... Talvez? Se fosse verdade não era preocupante, era tenebroso): "29% dos filhos de casais homossexuais são vítimas de pedofilia por parte de um dos pais, pelo menos, contra 0,6% dos filhos de casais heterossexuais", sendo o principal autor Paul Cameron, o senhor que já  apresentei.

 

"Não faço juízos de valor (...) sobre uma cultura que tão claramente as prejudica", às crianças. Ciência, diz ele. Pois.

 

Ps: Este corte de pio que me fez - legítimo,  entenda-se, afinal cada um gere como muito bem entende as suas caixas de comentários - implica ficar sem saber se, como já havia perguntado, na opinião de Pedro Picoito são admissíveis visões cristãs sobre a adopção que, tendo o superior interesse da criança como base, não a considerem inadmissível. Paciência.

 

*Como o Pedro Morgado teve oportunidade de explicar "algumas das citações que utiliza não dizem respeito a produções cientificamente validadas pela revisão de pares mas a opiniões produzidas por técnicos e/ou cientistas em livros. Isto significa que apesar de poderem ser utilizadas no debate público não podem ser utilizadas para justificar cientificamente as suas posições".

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