assim tão simples
Cumprir um acordo de resgate do País com medidas duras e metas de défice mais que draconianas; partir de uma situação em que os juros da dívida soberana tinham ultrapassado os 7% para pagar uns generosos (!) 5,5% pelo empréstimo da troika; fazê-lo no meio de uma crise europeia e mundial e com a Europa transformada num império mal disfarçado; lidar com buracos como o do BPN, ao qual ninguém sabe o que fazer; encarar, como qualquer governo, os sempiternos "problemas estruturais" de um país pequeno, com uma economia pouco dinâmica, um dos maiores níveis de desigualdade da Europa e uma taxa de pobreza que, se descera nos últimos anos, só pode inverter a tendência com o desemprego em crescendo e os apoios sociais em baixa. Não, não podemos dizer que era fácil e simples - mesmo se, em campanha, PSD e PP o afiançaram. Aliás, tinham tudo "estudado", "contas feitas", "soluções" (entre as quais a da famosa descida da taxa social única, que, lembram-se, era a bala de prata da competitividade?) preparadas.
Certo é que aos nove meses de idade o executivo PSD/PP é confrontado com o agravar de todos os indicadores que antes reputara sinal de fracasso e incompetência: o desemprego que quando ganharam as eleições era 12,1% rasa já os 15% (com um aumento brutal desde o início do ano); as falências sucedem-se em catadupa; o risco de incumprimento cresceu e os juros da dívida estão nos 13%. "Fatores e contextos" que, descobriram agora ( para o tarde) Passos e seus ministros, "não podemos controlar". Mas também no que têm de controlar - o défice - as coisas correm mal, muito mal.
Que faz perante o desastre - porque isto é já o desastre - o Governo? Vai aos EUA anunciar, via Gaspar, que tudo corre à maravilha e o fundo do túnel é em 2013, mais precisamente a 23 de setembro (horas, por favor?). Se é da natureza dos governos ostentar voluntarismo e otimismo (aquilo que antes se chamava autismo, lembram-se?), convenhamos que isto é já território de dogma.
E não precisamos de ir mais longe que o próprio Executivo para encontrar quem o afirme. "Se a troika impuser uma política de austeridade cega e sem olhar a meios, o mais certo é que a economia nacional entre numa recessão ainda maior, o que agravará ainda mais os desequilíbrios das finanças públicas (pois as receitas fiscais cairão e os défices aumentarão nesse ambiente recessivo)." E ainda: "É simplesmente inaceitável que um país como o nosso tenha taxas de desemprego desta dimensão. Estes números são uma vergonha para todos nós. [...] E quanto mais tardarmos a lidar com esta situação potencialmente explosiva, piores serão as consequências para todos nós." Quem há um ano o disse é hoje - pelo menos formalmente - ministro da Economia e do Emprego. E das duas uma: ou está a morrer de vergonha, ou nem sabe o que isso é. Como usava rematar no seu blogue, "é assim tão simples".

