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«Reconstrução nacional» e «patriotismo», a propósito do congresso do PSD

Acabo de ouvir nos vários telejornais frases ditas no congresso do PSD, relativamente ao qual nenhum interesse me moveu – confesso – mas que me suscitou alguma curiosidade, quando ouvi arepetição das palavras «início», «revolução tranquila» e «reconstrução nacional» (Passos Coelho). Não tenho bem a certeza de os termos que cito serem exactos, a não ser relativamente a esta noção de «reconstrução nacional», da autoria do chefe do governo, que me chamou particularmente a atenção. Depois também ouvi Nuno Melo, do PP (partido da coligação governamental) a chamar a atenção para a importância do patriotismo demonstrado pelos portugueses relativamente às agruras necessárias provocadas pela actual política. Quase me pareceu que se poderia depreender dessa frase que não haveria atitude patriótica nos críticos desta política ou nos que não a aceitariam de forma passiva. Mas estou certamente enganada. De qualquer forma, parece-me claro que estão a ser utilizados novos termos, remetendo para novos (velhos) conceitos de «começo» e de «início», claramente ligado a valores patrióticas e naciona(l)is(tas) de regeneração e reconstrução, habitualmente usados no (e para o) combate a uma pretensa «decadência» nacional.

 

Há mais de vinte anos, o historiador Roger Griffin contribuiu para a caracterização dos regimes antiliberais e antidemocráticos que assolaram a Europa no período entre-guerras do século XX, com um importante livro (The Nature of Fascim, 1991) onde recorreu ao mito da criação do «homem novo» para elaborar um conceito de «fascismo». Segundo a definição ideal-típica de fascismo elaborada por esse autor, a ideologia fascista seria marcada por um «ultranacionalismo populista palingenético» – de «palin» (restauração) e «genesis» (criação, nascimento) –, cujo mínimo denominador comum seria precisamente o mito da criação do «homem novo» e de um «mundo novo», necessários, após décadas de liberalismo dissolvente e decadentista. Tal como o regime fascista italiano de Mussolini utilizou esses conceitos, elaborando até um calendário novo que se iniciava a partir do momento da «Marcha sobre Roma», em 1922, também o regime português de Salazar, em início de carreira, recorreu frequentemente aos termos de «regeneração nacional» ou «reconstrução nacional», nos anos 30 e 40 do século XX. Através deles, pretendia-se mostrar que o Estado «Novo» era um «novo» regime regenerador, restaurador e reconstrutor, que se propunha enterrar a decadência nacional promovida pelo liberalismo, pelo parlamentarismo, pelo socialismo e pelo comunismo. As célebres comemorações do duplo centenário e da Exposição do Mundo Português, de 1940, celebravam precisamente três importantes datas: 1140 (fundação e Portugal); 1640 (restauração de Portugal) e 1940 (regeneração de Portugal), através do Estado «Novo».

 

Estarei provavelmente enganada e talvez haja aqui apenas infelizes coincidências. Mas não queria deixar de alertar para o facto de as palavras poderem ter efeitos.

 

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