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Ecce homo

Finalmente, o ministro foi-se embora. Toda a gente respira de alívio. Quem está acima livrou-se da impopularidade da figura com as eleições no horizonte, quem está na oposição vê a confirmação da "política errada" e o recuo governamental, quem está abaixo festeja a vitória e já faz ultimatos à nova titular. Quanto aos eleitores, que nem parece que deram uma maioria parlamentar a este partido para que pudesse fazer as tão desejadas "reformas de fundo", esses bocejam. Afinal, parece que ninguém quer a reforma na saúde. Como ouvi hoje da boca de um dos cabecilhas do movimento de contestação da Anadia, "nos princípios estamos de acordo, não concordamos é com a prática". Pois o problema das reformas é sempre este. Todos concordamos com a sua necessidade, com o seu atraso, com a sua inevitabilidade. Não concordamos é com a prática. Enquanto a coisa se fica em declarações de intenções, remamos todos para o mesmo lado. Quando começa a doer é que são elas. E se tem que doer a alguém, que seja aos outros. A mim, não. É isto na saúde, na educação, na justiça, na administração pública. Et la nave va. Fazer sinal à esquerda e virar à direita, fazer alguma coisa para que tudo fique na mesma, são expressões velhas que me ocorrem de momento. Não há estudo, pesquisa, dossier que resista à inexorável voragem dos media, das baterias apontadas, do desgaste e da erosão a que uma reforma deste tipo está sujeita. As pessoas vão suspirando, de forma mais ou menos envergonhada, mais ou menos sussurrada, por soluções milagrosas, desde "um novo Salazar que endireite isto" até à integração no país vizinho. Pelo meio, lá vai mais um jogo do Benfica e um joguinho no Euromilhões. É tudo uma questão de fé. De fezada, melhor dizendo. E fé num ministro é coisa inédita. Não é casamenteiro nem faz milagres. Mas às vezes parece que era suposto fazê-los.

A mim, que não tenho especial simpatia por Correia de Campos nem sou adepto do corte cego nas despesas ou do encerramento dos serviços porque sim, dá-me a sensação de que este foi um caso infeliz. O ministro caiu por causa de Anadia, da criança que morreu há dias e, sobretudo, do barulho mediático. Parece-me que há uma grande confusão entre "serviços de urgência", "ambulâncias do INEM" e "centros de saúde". As pessoas querem o seu serviço de urgência como querem o seu clube de futebol, a sua colectividade, quiçá a sua maternidade. Com doses maciças de desconfiança a minar a relação com o poder eleito e imagens de mais uma criança a nascer (ou a morrer) numa ambulância, está o caldo pronto. As pessoas reagem quase cegamente sem saberem, muitas vezes, porquê. Nestas situações, lembro-me sempre dos comentários pessimistas dos velhos quando falam dos assaltos e do aumento da criminalidade. O tom geral é invariavelmente o de que "isto está cada vez pior", ou "antigamente não havia disto". Poucos parecem perceber que "antigamente" havia censura e a penetração dos media era mais do que limitada, enquanto hoje devoram diariamente o Correio da Manhã com doses maciças de "casos de polícia". Um pouco como o alegado aumento dos casos de pedofilia, como ouvi muitas vezes da boca de familiares. Nem lhes passa pela cabeça que "dantes" não eram denunciados e, sobretudo, não vinham nos jornais. Voltando à vaca fria, quando "antigamente" alguém morria num centro de saúde, não era notícia. Afinal, o médico, o enfermeiro ou o serralheiro de serviço faziam o que puderam. Hoje, se alguém morre numa ambulância  caminho do hospital, onde há meios e pessoal médico habilitado, a culpa é do ministro, porque encerrou o tal centro de saúde. Bom seria ter um hospital D. Estefânia em cada localidade, para as crianças, um Santa Maria em cada aldeia, para a cardiologia, e por aí fora. Ninguém parece perceber o ridículo disto. No século XVI e XVII, os vice-reis da Índia eram nomeados por 3 anos. Dizia-se então que cada um passava o primeiro ano a pagar as dívidas e a tapar os buracos do seu antecessor, o segundo a inteirar-se dos problemas e das carências existentes, e o terceiro a desviar o seu pecúlio para preparar o regresso ao reino. Resultado, as crises agravavam-se e o Estado da Índia dava mais um passo no seu torpor imobilista e incapaz de reformas de fundo. Não foi por acaso que  estrutura básica criada por Afonso de Albuquerque, Ormuz + Goa + Malaca, se manteve estática e inalterada, apesar de todos os diagnósticos que apontavam para os graves inconvenientes desta situação, apesar de todos os projectos de mudança. Sim, já nessa altura, os portugueses eram pródigos em projectos e paupérrimos em reformas. Medina Carreira disse anteontem, na SIC-Notícias, coisas muito interessantes, no tom que lhe é peculiar. Mostrou simpatia pelo ministro, reconheceu a sua indesmentível capacidade técnica e a sua preparação para a tarefa, mas rematou logo a conversa com a ideia de que não iria muito longe, porque "não tem dinheiro". Portanto, das duas, uma: ou a demissão de Correia de Campos permite milagrosamente desbloquear os milhões necessários, ou a nova ministra está condenada. Há uma terceira hipótese, de longe a mais desejada por todos: adie-se a reforma do sector, deixe-se tudo como está. Depois das próximas eleições, logo se verá. Afinal, talvez um dia apareça um ministro capaz de uma reforma integral de um sector em menos de 3 anos. Porque se demorar mais do que isso, está condenado.

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