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das coisa inaceitáveis em democracia

há muita coisa para dizer sobre o caso relvas/público. alguma dela tem a ver com a forma como a direcção do jornal lidou com algo que já referiu várias vezes como 'inaceitável' e que hoje em novo comunicado caracteriza como 'inaceitável vinda de um membro de um governo democrático'. é decerto burrice minha, mas é-me de todo incompreensível que algo que merece -- de resto em meu entender, e mesmo do ministro relvas, que o disse em conferência de imprensa após o seu depoimento na erc, justamente -- esta qualificação não tenha suscitado à direcção do público, ao tomar conhecimento do facto, uma reacção imediata de denúncia. é que as coisas ou são inaceitáveis em si e portanto não se aceitam, e não é com pedidos de desculpas (que de resto não sabemos ainda a que respeitaram) que passam a ser aceitáveis, ou só o passam a ser quando são tornadas públicas -- facto que, como a própria direcção do público admite, só aconteceu contra a sua vontade.

 

é que, como aliás bem disse o ministro na conferência de imprensa, dizer que se vai recorrer aos tribunais, fazer queixa à erc, à comissão da carteira etc, pode ser uma pressão mas nada tem de inaceitável e em nada atenta à liberdade de informar. bem sei que nos últimos anos se criou uma doutrina no sentido contrário -- doutrina que o próprio público subscreveu, ao denominar de censura prévia, em manchete, uma decisão de tribunal em relação ao sol -- mas o recurso aos meios legais faz parte da democracia e do estado de direito, e era o que faltava que os políticos, e nomeadamente os governantes, não pudessem defender o seu bom nome ou outros direitos de personalidade. mas fazer ameaças como a de um boicote generalizado do governo a um título ou, muito pior, ameaçar divulgar dados sobre a vida privada de um jornalista, sejam eles verdadeiros ou falsos, é absolutamente coisa outra. 

 

faz parte dos deveres legais de um jornalista, expressos no estatuto da profissão, denunciar quaisquer tentativas (sérias, evidentemente) de coarctar a sua liberdade/responsabilidade de informar. por maioria de razão, é obrigação de um jornal denunciar publicamente aquilo que considera uma ameaça inaceitável por parte de um governante. não o fazer neste caso significa desconsiderar a gravidade do que se acusa relvas de ter feito mas, muito pior, significa ocultar ao país que tem um ministro que a direcção do público considera fazer coisas inaceitáveis num governante democrático. luís delgado disse na sic notícias, talvez com exagero, que a revelação da ameaça de relvas é a notícia do ano e que o público só podia fazer manchete com ela. não fez, nem manchete nem nada. atrevo-me a dizer que também essa atitude da direcção do público é inaceitável vinda de jornalistas de um estado democrático.  

 

por fim, e para quem acha que nada há de especial em ameaçar tornar público com quem vive -- ou quem se julga que vive -- um jornalista com o intuito de a retirar de um determinado caso (que é obviamente o intuito de uma ameaça destas): é evidente para mim há muito que o valor dos direitos fundamentais das pessoas, nos quais se incluem direitos de personalidade e a reserva da vida íntima (que faz parte da esfera mais sagrada da liberdade individual) têm muito baixa cotação neste país, e que a progressiva invasão da privacidade perpetrada pela chamada imprensa cor de rosa, que de resto já não se distingue muito do resto da imprensa, foi tornando as pessoas cada vez mais indiferentes aos crimes que assim se cometem. contra isso, infelizmente, nada a fazer -- e assim se ouve e lê que não há problema nenhum em divulgar com quem vive o jornalista a ou b, sendo talvez até obrigatório que este o revele (há, incrivelmente, decisões de uma instância profissional nesse sentido). não tenho paciência sequer para discutir mais isso; quem quiser ler o que escrevi sobre o assunto que google. mas é bom que se tenha presente que a intenção do ministro, tal como narrada na versão da direcção do público, foi usar isso como forma de impedir a publicação de uma notícia. centrem-se nisso, se não conseguem indignar-se com mais nada. se se indignarem com isso, claro está. 

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