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VD e saúde (III)

Continuação daqui e daqui.

 

Existem duas abordagens tipo de recolha de informação sobre VD em sede de estruturas de saúde, o despiste sistemático, quer isto dizer a recolha anamnéstica de informação sobre VD qualquer que seja o motivo clínico subjacente à ida ao serviço, e o despiste selectivo, baseado em indicadores, nomeadamente a presença  de quadros depressivos, diagnóstico de doenças sexualmente transmitidas e lesões traumáticas sem aparente justificação.

 

Qualquer que seja o modelo escolhido a informação deve ser obtida através de uma entrevista presencial, sem outras pessoas a assistir e sem que haja qualquer juízo de valor sobre a situação. Para além disso importa ter presente que existem diferentes formas de actuação e que mesmo que a ruptura relacional não seja a solução previsível nem desejada pela vítima no momento da avaliação clínica, reconhecer e valorizar a situação é já de si uma ajuda, tantas vezes a primeira. Como referiam Perttu e Kaselitz em 2006, o papel dos profissionais de saúde é validar a experiência daquela mulher e legitimar os seus sentimentos face à violência, o seu propósito deve ser ajudá-la a reconhecer que vive uma situação de violência. Para tal deve adoptar uma postura de escuta activa e sustentadora, ajudando deste modo o processo de consciencialização da situação.

 

Os mesmo autores propuseram uma lista de 10 pontos destinada a memorizar as etapas de uma entrevista onde se questiona uma mulher sobre violência doméstica.  Estes 10 pontos são válidos quer para despistagens sistemáticas quer para despistagens baseadas em indicadores de violência.

1. Comece por estabelecer um clima de confiança. Uma relação de confiança entre o profissional de saúde e a mulher permite a esta abrir-se e falar mais facilmente de aspectos íntimos da sua relação. Se necessário use interpretes profissionais (nunca amigos ou familiares da paciente).

 

2. Tome a iniciativa de fazer perguntas sobre violência doméstica. Não espere que ela aborde o tema. Questione-a ouça-a falar das suas experiências. Pode acontecer que ela não queira falar da violência ou que tenha medo que não acredite no que ela lhe diz (dirá).

 

3.  Garanta a privacidade. A segurança das vítima e dos seus filhos é soberana. Não faça perguntas sobre a violência se não estiver sozinho com a paciente, nunca se ela estiver acompanhada do/a parceiro/a, irmã, filhos, amigo/a, etc.. Assegure-se que a mulher pode voltar para casa sem correr risco.

 

4.  Identifique os factores de risco da violência conjugal. Não negligencie mulheres com deficiências ou idosas, estas apresentam um risco mais elevado de serem vítimas de violência.

 

5. Explique as opções existentes no plano jurídico da protecção de vítimas e seus filhos. Diga à vítima que a violência é sempre um crime.

 

6.  Discuta com a vítima as ideias-feitas sobre violência. Forneça-lhe informação sobre os factos: prevalência da violência sobre as mulheres; que ela não é responsável nem culpada do comportamento violento do/a seus/sua parceiro/a; ela não conseguirá acabar com a violência mudando de comportamento ou tentando ser uma pessoa diferente; discussões e violência são duas coisas completamente diferentes; um problema de alcoolismo não pode nunca explicar nem justificar um comportamento violento.

 

7. Fale à vítima do impacto da violência. Avalie se a vítima está numa situação de crise necessitando uma consulta imediata ou a intervenção de um psicólogo ou psiquiatra. Fale-lhe do efeito da violência nas vítimas (por exemplo, exaustão total, impacto na saúde mental). Estimule-a a procurar apoio psicológico.

8. Registe todo o processo e diga à vítima o que vai anotando. Um bom registo pode constituir a mais importante prova em caso de conflito. Atestados médicos, relatórios dos profissionais de saúde e de outros intervenientes, mensagens telefónicas, sms, emails, cartas, diários, etc., podem ser usados como prova.

 

9.  Fale com a vítima sobre outros serviços úteis. Informe-a de quais os serviços que lhe podem oferecer assistência e apoio.  Mantenha-se ao corrente dos serviços disponíveis na sua região. Forneça a cada mulher informações sobre serviços de apoio nacionais e regionais e os números de telefone s.o.s. (apoio da vítima, polícia, etc). Pode, igualmente, acompanhá-la na ida a um desses serviços. Por exemplo: incentive-a a procurar um médico mesmo se não tenha certezas e apenas suspeitas de que está em presença de uma vítima de violência física ou sexual. Informe-a que uma consulta e declaração médica pode servir para assegurar protecção jurídica.

 

10.  Não a abandone. Volte a estar com ela se nenhum serviço está disponível nesse momento. Uma mulher maltratada tem necessidade de um apoio específico para conseguir ultrapassar as consequências da violência. Se o agressor procura (ou procurou) de mote próprio ajuda no seu serviço é preferível encaminhar a vítima para outra instituição. É também fundamental assegurar ajuda para os filhos. Estes têm o direito de falar do que viveram sem que os pais estejam presentes.

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