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a man for past seasons

Corria o ano de 1987. Na Faculdade de Letras de Lisboa vivia-se uma efervescência invulgar que atravessava as salas e os corredores: um numerus clausus pós-licenciatura, tirado inabilmente da cartola pelo então ministro da educação, João de Deus Pinheiro, e que ameaçava condicionar o acesso dos licenciados à vida profissional, mobilizava os estudantes. Nesse ano tive a minha experiência de luta estudantil: RGAs com moções votadas por unanimidade, o Gil Garcia (sim, esse mesmo) a galvanizar o povo - era o único que falava sem microfone, com a veia na testa quase a rebentar-, manifestações, cartazes, solidadariedade universitária, os estudantes na rua, um blackout informativo quase total. Quem hoje se queixa da cobertura dos media sobre eventos de rua não sabe a sorte que tem, nessa altura só havia RTP, e completamente controlada pelo governo. Recordo-me de uma manifestação que seguiu da Cidade Universitária para a 5 de Outubro, e daí para o Rossio, em plena hora de ponta. Quando lá chegamos estava a polícia de choque à espera. Nem uma imagem, nem uma palavra no noticiário dessa noite. Foi um ano deveras singular. Foi também por essa altura que perdi a minha ingenuidade científica. Na discussão de um trabalho de História Institucional e Política Medieval, sobre D. Pedro I, levei uma rabecada da docente em frente à turma. Erros? disparates? Não. Apenas o pecado de lesa-universidade de ter incluido na bibliografia dois artigos de José Hermano Saraiva. 

18 anos antes, as lutas estudantis eram outras, bem mais penosas, graves e prementes. Afastado Salazar por incapacidade, o governo de Marcello Caetano tentava arejar, com novas roupagens, a decrepitude do regime. Em abril ocorria em Coimbra o célebre episódio do "peço a palavra" protagonizado por Alberto Martins, que deixou o Presidente gaguejante e o regime em estado de choque. A crise académica que se seguiu foi mais um abanão no edifício legado por Salazar. O ministro da educação era então o mesmo José Hermano Saraiva, duro do regime, que acusava os estudantes de "desrespeito", garantia que "a ordem vai ser restabelecida na Universidade de Coimbra" e mandava ocupar a universidade com GNR e polícia de choque. De tal maneira foi a sua atuação inadequada que o chefe do governo apressou-se a substitui-lo no ano seguinte.

Na Faculdade de Letras de Lisboa, a memória do ministro que mandara os gorilas malhar nos estudantes não estava esquecida em 1987. Mas por essa altura eram já os seus créditos como historiador que eram alvo de total rejeição por parte da comunidade académica. A forma como selecionava factos e interpretações para se ajustarem às suas conclusões, a sua abordagem nacionalista, as suas teses sobre Camões e sobre os chamados "descobrimentos", retiraram-lhe credibilidade científica. O facto de ser membro de várias Academias (das Ciências, de História, da Marinha) concedia um teor bizarro a tudo isto. Era, evidentemente, um grande comunicador televisivo, um divulgador nato, aliás, o único que, até hoje, conseguiu falar de História de forma interessante em frente às câmaras. Quando me perguntavam que estava eu a estudar, a réplica à minha resposta era invariavelmente a mesma, com as três palavrinhas que formavam o seu nome. Foi por essa altura que comecei a perceber que um bom divulgador pode ser um mau historiador, que medalhas e cátedras nas Academias não valem a estigma de não se poder citar os trabalhos e, sobretudo, que os caminhos divergentes do rigor científico e do mérito comunicativo cavam, no fundo, o fosso entre a comunidade científica e o público leigo. José Hermano Saraiva morreu hoje. Os media continuam, como sempre, a apelidá-lo por "professor" e por "historiador".

 

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