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Bolor Real



Todos os anos, os monárquicos lá dão um ar de sua graça, pelo 5 de outubro. Para um monárquico, trata-se de uma data agridoce, pois assinala simultaneamente a consagração e a queda da monarquia portuguesa, em 1143 e 1910, respetivamente. Que ela caiu há 102 anos, restam poucas dúvidas; que se tenha erguido há 869 é que é mais duvidoso. O Tratado de Zamora não foi nenhum "reconhecimento pela ONU", mas apenas por Afonso VII, de que Portugal passava a "reino" e D. Afosno Henriques, a "rei". Mas como o rei de Leão-Castela se afirmava "imperador", era normal (e desejável, até) que tivesse mais um "rei" como vassalo, coisa que D. Afonso Henriques continuou formalmente a ser. O reconhecimento "internacional" e o fim deste vínculo vassálico a Castela só ocorreu em 1179, com a famosa bula Manifestis Probatum. Enfim, coisas passadas. Mas os monárquicos de 2012 vêm dizer que nesse 5 de outubro de 1143 "nascia formalmente o que já se anunciava: uma ideia, um projecto, uma nação que veio a ser Portugal". É um bocadinho de boa vontade a mais, para além de não se perceber bem, alguém explique: a ideia/projeto/nação foi primeiro anunciada, depois nasceu e por fim veio a ser? Bom, não importa. Importa,sim, que são motivados pelo "mesmo espírito de união, a mesma ideia e o mesmo projeto que nos anima desde 1143". Mas só a eles, monárquicos, porque os republicanos desse tempo eram certamente, sei lá, iberistas. 

Adiante. O que considero mais interessante no manifesto é a patine passada por cima de tudo. Os problemas que Portugal enfrenta, os velhos, os novos, os irremediáveis e os para esquecer são culpa da República. E o que é a República? um "regime obsoleto, gasto e imposto pela força, que após 16 anos de caos e de infâmia, de 40 anos de autoritarismo paternalista e de 38 de prodigalidade e desgoverno financeiro nos deixou, a todos, falidos e desnorteados". Genial, o Relvas não faria melhor. Talvez fosse bom lembrar a estes lobotomizados da História o que foi a ditadura de João Franco, por exemplo, só para falar em casos concretos e para não me meter em alhadas de estruturas produtivas, fomento, Cortes & caos, desenvolvimento industrial, scramble for Africa, alfabetização e coisas assim. Mas nada disto parece importar. Nem o antes, nem o depois de 1910, porque a solução para tudo está onde? onde? No "Chefe de Estado". Meta-se a República no shredder, chame-se Duarte Pio e Isabel de Herédia para Belém, restaure-se a monarquia, que Portugal voltará os bons trilhos de onde foi desviado em 1910. É isto, não é? Ora abóbora. E ainda têm o topete de convidar o povo português "para que pense, sem preconceitos, sem utopias, sem demagogia, na alternativa que apresentamos. Uma alternativa real." Pensar sem utopias é uma coisa perigosa, diria eu. Mas, mas, "alternativa real"? ora, ora, a única que conheci era a da imagem, e desapareceu há décadas. O que resta deve estar estragado. Imagine-se o bolor de séculos.

(Este ano aguardei que um dos subscritores, essa grande figura da Causa que se transfigura em Darth Vader, desse um ar de sua graça, agora que está tão próximo do poder, mas não, aparentemente a máquina de lavar lá de casa tingiu-lhe as fatiotas azul-brancas de laranja indelével.) 

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