Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

jugular

A purga

O crédito é curioso. Os excessos são sempre identificados depois de as crises acontecerem e, na generalidade dos casos, exibidos como culpa do comportamento irresponsável de quem viveu com os meios que não tinha. Ora, há aqui duas coisas que têm necessariamente de ser pensadas e ditas. 1) devia ser difícil entender a irresponsabilidade de quem pede o crédito sem a conjugar com a irresponsabilidade de quem o concede; e 2) a avaliação da capacidade creditícia (por parte dos dois agentes) é altamente dependente da confiança dos agentes económicos.
 
Nenhum crédito é viável numa economia em - pelo menos risco de - espiral recessiva. Nem um. O problema mais grave da narrativa que define o que generosamente podemos apelidar de política económica e financeira deste governo é exactamente este ponto. Ainda recentemente fomos brindados com declarações governamentais dizendo que a quebra de actividade económica e os níveis insustentáveis de desemprego que temos vindo a sofrer eram, afinal, boas notícias. Que as empresas que vão à falência todos os dias são más, uma espécie de toxinas de que Portugal faz bem em livrar-se, e quanto mais depressa melhor. Por arrasto, calculo, podemos supor que o desemprego gerado por essas falências é também composto por gente de fraca qualidade, uns improdutivos a quem este merecido castigo poderá ajudar a repensar a forma errada como têm levado as suas vidas.
 
Neste tipo de discurso misturam-se várias coisas, qual delas a pior. Em primeiro lugar, uma crença imensa na meritocracia, vinda invariavelmente de quem, tendo tido algum sucesso, o atribui apenas às suas capacidades desprezando totalmente as próprias condições de partida e o impacto que a sorte, ou o acaso, desempenha no percurso de cada um. Claro que isto implica, por exemplo, ver quem está desempregado, ou numa situação de pobreza, como alguém que, no fundo, apenas não se esforça o suficiente. Em segundo lugar, uma visão arcaica e profundamente classista da sociedade: quem manda os "mais modestos", que tinham uma vida "simples, mas honrada", quererem mais? Finalmente, uma fé inabalável que o sofrimento não é algo apenas necessário, mas desejável. Uma purga redentora, que se encarregará de criar um novo Portugal.
 
Ou seja, laissez-faire misturado com imobilismo e crença numa qualquer redenção moral. Parece alucinado? Sim, e é mesmo isto que nos governa.

Arquivo

Isabel Moreira

Ana Vidigal
Irene Pimentel
Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Anónimo

    The times they are a-changin’. Como sempre …

  • Anónimo

    De facto vivemos tempos curiosos, onde supostament...

  • Anónimo

    De acordo, muito bem escrito.

  • Manuel Dias

    Temos de perguntar porque as autocracias estão ...

  • Anónimo

    aaaaaaaaaaaaAcho que para o bem ou para o mal o po...

Arquivo

  1. 2025
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2024
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2023
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2022
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2021
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2020
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2019
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2018
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2017
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2016
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2015
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2014
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2013
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2012
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2011
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2010
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2009
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2008
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D
  235. 2007
  236. J
  237. F
  238. M
  239. A
  240. M
  241. J
  242. J
  243. A
  244. S
  245. O
  246. N
  247. D

Links

blogs

media