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jugular

Um texto de Cândida Vieira (assino por baixo)

Carta aberta a :
Sociedade Portuguesa de Autores
RTP 1
…e sucessivos intervenientes na Gala da SPA 

Acabei de ver a Gala da SPA e não consigo deixar de mostrar a minha indignação como espectadora. Talvez o mais confortável e pactuante seria ficar calada mas por imperativos vários não o consigo. A celebração da Cultura e seus “fazedores” parece-me completamente legítima e fundamental e, hoje mais do que nunca, entendo ser um dos poucos “caminhos” possíveis para alguma satisfação nestas “nossas vidinhas” isentas de prazer ( muito obrigado senhores Governantes, pelo “vazio” que creditaram neste nosso Portugalinho… ). 
Vem isto a propósito do confrangedor rol de barbaridades televisivas a que assisti, ontem na RTP1, ou seja a Gala da SPA. Num país pouco dado à celebração dos seus Artistas, num país onde infelizmente os Governos e seus acólitos, não entendem, direi melhor ; não querem, promover estas dinâmicas, regozijo-me da existência duma atribuição de prémios plural, ( cinema, teatro, literatura, dança, rádio, televisão, etc… ) por parte duma instituição credível e de referência, a SPA, quando pouco ou mais mais nada existe neste universo e com alguma visibilidade, que hoje em dia só se adquire através da grande “janela” televisiva.


Não vou discutir as escolhas, nem nomeados, nem prémios. Vou só enumerar a grande falta de dignidade e displicência que presenciei, que nem “espectáculo televisivo” conseguiu ser ( e depois queixam-se da falta de “share”…), mas sim um somatório de equívocos labregos e de falta de noção por parte dos vários intervenientes, quando o acontecimento deveria de ser do território do prestígio.
Antes de mais, lamento o critério, serôdio e de lamentável mau gosto, do “espaço cénico” onde a função se desenvolveu. Num espaço priviligiado, como o Auditório do CCB onde qualquer “trapinho” pode parecer seda, vi uma cenografia de Festival da Canção de província : efeitos de luz de espectáculo pimba,

( versão : dá-lhe lá com os very lights por dá cá aquela palha… ) videos inábeis e descontextualizados, cores e grafismo a rebentar com a “resistência” visual de qualquer espectador. A direcção de arte, ou seja uma visão global estética e plástica, inexsistente, até permitiu a apresentadora e convidadas nos mesmo tons, dissolvendo-se naquele mirabolante espaço de feira. Claro, que ninguém pensou em termos de “costume styling” global ( nem outros, quanto mais… ) e o quanto estavam descontextualizadas também as “assistentes”, pobrezitas e dispensáveis, mas pronto…É o chamado ; todos ao molho e fé no Dino Alves… com todo o respeito pelo dito.
Quanto às ambiências das pequenas rábulas ou ambiências nas performances de alguns artistas : nem sequer me pronuncio. Agora, vou só mas só, enunciar uma dissonância lamentável : os separadores musicais. Tenho visto muitas Galas e similares, mas uma onde os “separadores musicais”, que anunciam situações e criam climas de expectativa, ferem e são duma agressividade auditiva, minimal e insuportável : há muito tempo que não via, ou seja, não ouvia ! Lamentável. Depreendo também que estas Galas costumam ter um guião. Que eu saiba, escrevem-se e alinham-se todos e quaisquer “lines” que os apresentadores deverão enunciar . Esta Gala tinha guião ? Provavelmente sim. Ou então “estava tudo à solta” . Mas deixo aqui uma reflexão : que apresentação foi esta ? Os apresentadores, que eu entenda, não são as “estrelas da noite” ; as estrelas da noite são os “ganhadores”. São eles, que podem, mais feliz ou infelizmente, em função da emoção ou da inteligência, improvisarem os seus discursos de vitória. De resto, os apresentadores estão lá, para fazerem as ligações, para darem ritmo ao espectáculo, para colmatarem alguma falha : não, aqui não ! Aqui estavam “ao contrário”, e confundem alguma informalidade com exuberante e insistente protagonismo. Catarina Furtado, a grande “estrela” da nossa televisão”, agiu com toda a debilidade e impunidade, que ela acha legítima concerteza, tendo insistido num desapropriado estilo, de uma falta de gosto ao nível da indigência…sem sentido algum e em versão “estamos todos em casa ; tudo malta de esquerda, tudo malta de Abril” … eh pá a gente conhecesse todos e isto é “muita nice”… ( nem Alice Vieira a conseguiu “pôr no lugar”…). Lamentável. Pronto, é o “tom da coisa” e portanto diz o que lhe apetece e quando lhe apetece, a quem lhe apetece. 
Aconselho-a vivamente a ser menos “expansiva” e insistente nos “improvisos” !
Alguns convidados também, nas atribuições dos prémios, deveriam de ser admoestados : vejam e revejam OUTRAS Galas – quando os vencedores estão a falar o background está caladinho e sossegadito ! Certo ? Certo ! Mas não. Tudo isto, contribuíu para a falta de ritmo, de atabalhoamento e amadorismo, confusão em palco : não, vai para aqui, não vai para ali, dá cá beijos e tal, e é “giro” e somos todos do “métier”.
Diogo Infante lá tentou “dar outro tom à coisa” de inicio, mas…isto pega-se !
Já vi mais rigor em récitas de final de liceu…
Quanto à realização – uma maçada ! Quando se faz um espectáculo destes, e se pensa no local onde o produzir, pensa-se na quantidade de pessoas que vão estar presentes e vão ser “visiveis”. Portanto, ou se opta por locais de dimensão mais reduzida ou se encontram truques para “ter a casa cheia” : figuração, distribuição de bilhetes gratuitos de última hora etc. Esta realização, e esta produção, brindaram-nos com inúmeros e insistentes planos gerais da plateia onde os “buracos” eram “mais que as mães” . Ponto. Há lá coisa mais tristonha que ver uma Gala de “casa vazia” ?
Donde, é com este “estilo” de produção que a SPA se revê ? É com estes lamentáveis somatórios de barbaridades várias que a SPA acha que mantém credibilidade e prestígio ? É com estes erráticos e pindéricos momentos televisivos, sem rigor, sem equacionamento e uma uniformidade prévios, sem uma linha de conduta elegante e profissional, que a SPA quer como imagem para a instituição que é ?
É com estes momentos de duvidoso gosto ( nas escolhas que faz ) que a SPA se apresenta como um território de preservação da Cultura ? É com estas prestações descuidadas que a RTP reclama para si o estatuto de “serviço público” ? 
Pois, não sei. Só sei que como espectadora vi do principio ao final com “vergonha”…
Que é a coisa pior que pode acontecer a um “espectador” : ter vergonha do que está a ver…
Por último ; a panóplia dos nomeados, suas excelsas familias, restante plateia e afins . Ok, todos nós sabemos que estamos “sem cheta”, que tudo isto é “doméstico” e tal, não é a “Moda Lisboa” mas, caramba já é tempo, e se é UMA GALA, de se ir um bocadinho mais bem arranjadote, mais elegantinho, hein ?
Já chega de públicas maltrapilhices de “esquerda” como se isso fosse algum statement, seja lá do que fôr…
Pode-se sempre pedir emprestado um vestidito mais pinoca !
E depois queixam-se de que estamos no país “dos Relvas”…

 

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