História Incorreta do Portugal Contemporâneo
A primeira página do Jornal de Negócios de sexta trouxe-nos finalmente uma boa notícia: «não estamos livres de ter uma crise a sério, como a de 29». O alerta vem do mestre (em ciência política) Henrique Raposo, num momento em que vários economistas e o milhão de portugueses que se manifestou no sábado pensavam que já estávamos «numa crise a sério como a de 29». Aparentemente – economistas e portugueses – precipitaram-se.
Esta reconfortante declaração de Henrique Raposo surge numa entrevista que deu a Anabela Mota Ribeiro a propósito do seu último livro, “História Politicamente Incorreta do Portugal Contemporâneo”. A entrevistadora destaca uma confissão curiosa, vinda de quem diz que passou por todo o sistema público de ensino, aliás com notório aproveitamento: «Tenho 34 anos e ainda não vi o Estado Social». Em contrapartida, graças a esse Estado Social, este jovem historiador consegue ver coisas que mais ninguém vê: Soares era afinal um nacionalista e Salazar, esse sim, foi um europeísta. Raposo está prestes a descobrir que o Partido Socialista foi fundado em Santa Comba, e não em Bad Munstereifel como pretende a mitologia soarista. Escusava só de ter escolhido como representativo das posições atuais do PS um militante muito interessante mas cuja última quota paga deve ser a de Dezembro de 1985: «O Alfredo Barroso disse recentemente que o euro não é muito bom e que se calhar temos de pensar em sair do euro. Podemos, neste caso, dizer: “Estão a voltar às raízes”.»
Fica ainda assim uma dúvida: em que factos e leituras se apoiam tão extraordinárias teses? Anabela Mota Ribeiro põe o dedo na ferida: «Esses factos são os que constam dos livros de História de Fernando Rosas e Irene Pimentel? A bibliografia que consulta para a elaboração destes textos é sobretudo a de historiadores de direita…» Raposo não se fica: «Ao nível da História económica, [consultei] o Pedro Lains, que é um homem de esquerda, o Bruno Cardoso Reis, que é um homem de esquerda. O que pode dizer é que consultei uma historiografia que é muito mais nova do que [a feita por] esses dois [historiadores] que mencionou». Tendo em consideração que «esses dois» que Anabela mencionou têm historiografia que não é menos «nova», e que Lains e Reis (boas referências) não os substituem com vantagem no assunto aqui em causa (o salazarismo), na melhor das hipóteses o que aconteceu foi que Raposo, em vez da tradicional pesquisa bibliográfica, optou por uma ida à Feira do Livro do ICS.
A entrevista também chega à atualidade. Só que quando pensa como contribuinte, Raposo esquece os ensinamentos de Max Weber: «aflige-me que os ministros cheguem aos ministérios e não sejam capazes de dizer: “Preciso destas pessoas, destas, destas. Destas, não preciso”». Então, isso não traria o risco do clientelismo, pergunta Anabela Mota Ribeiro? Aparentemente, Raposo nunca ouviu falar da Dra. Ana Manso: «Que clientelismo pode haver nos hospitais?» Mas pronto, tal como todos nós, Henrique Raposo anda amargurado com o destino da pátria. Felizmente, este Alexandre Herculano dos tempos modernos já encontrou a sua Vale de Lobos: «Só há uma salvação: (…) é a agricultura. Eu, mais dia menos dia, vou ser um jovem agricultor.»

