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jugular

ódio nu

ontem, vi pela primeira vez no twitter menções a uma foto de merkel nua. não abri os linques. hoje quando abri o facebook a primeira coisa que vi foi a foto; alguém que parece merkel aos 17 ou 20 anos com outras duas mulheres igualmente jovens numa praia, as três a fazer nudismo. e os comentários: se a mamas são assim ou assado, se até era comestível quando nova, se assim até parece 'humana', se já se notava a marreca, se nos quer deixar também em pelota.

 

quando protestei contra a difusão da foto, cuja origem ninguém aparentemente conhece, no twitter, e sobre a qual não se sabe sequer a natureza -- foto 'verdadeira' ou montagem ou de alguém parecido com a chanceler? 'pública', que a própria aprovou para difusão numa qualquer ocasião, ou foto privada agora divulgada sem autorização das fotografadas? --, e por, independente dessa natureza, a partilha da imagem ser feita como ataque político e numa perspectiva claramente machista (pelo tipo de comentários que a acompanha), deparei-me com acusações de moralismo, 'feminismo radical' e 'excesso de defesa da privacidade'. (vá lá que ninguém se lembrou de dizer que estava furiosa por ser uma partidária de merkel).

 

houve quem me dissesse 'a carla bruni também tem fotos nua' ou ainda 'isto até é bom para ela porque mostra que em tempos foi gira'; 'a foto até é bonita'; 'não tem mal porque na rda o nudismo era uma coisa normal' e quem perguntasse 'se ela estivesse vestida, também invocavas o direito à privacidade?' e 'porque te ralas só com a merkel, então e as outras duas mulheres?'.

 

confesso que, apesar de estar razoavelmente habituada a que os valores da privacidade e do direito à imagem sejam completamente desprezados (para não falar do da igualdade), fui surpreendida por alguns destes 'argumentos'. sobretudo por virem de gente que costuma vocalmente desaprovar perseguições e ataques à vida privada de outros políticos e critica as práticas, por exemplo, do correio da manhã.

 

por partes:

 

achar que alguém que protesta contra a difusão desta imagem o faz por desaprovar ou se chocar com a nudez ou o nudismo, e, mais, achar que poderia ser o meu caso, é de gargalhada.

 

comparar esta foto, sem lhe conhecer a origem e estatuto, com fotos de modelo, de sessão profissional, como as de bruni, é idiota.

 

dizer que a foto é bonita é irrelevante, como contextualizá-la historicamente: o nudismo é praticado em todo o lado há décadas, como a imagem de nu é difundida há séculos; que interessa isso para o caso?

 

por fim, considerar que o facto de me deter em merkel (porque obviamente a foto é difundida por causa dela) significa que não quero saber das outras e sustentar que só invoco a questão do direito à imagem e à privacidade por a mulher estar nua é difícil de qualificar de outra forma que não desespero argumentativo.

 

como deveria ser evidente para toda a gente (e será se se colocarem, por um micro-segundo, no lugar de alguém cuja imagem é captada sem seu conhecimento ou para um determinado efeito privado e divulgada sem sua autorização, e mais ainda se se tratar de uma imagem de nu), é inadmissível partilhar-se uma imagem destas sem lhe conhecer a origem.

 

como deve ser evidente para toda a gente, se me fotografarem vestida a atravessar a rua e publicarem a foto sem minha autorização, estão a violar o meu direito à imagem. se o fizerem na praia, comigo de bikini, de monokini ou nua a violação é mais grave porque o grau de exposição a que estou sujeita e o tipo de atenção e comentários que essa exposição suscitará serão com toda a certeza mais invasivos. e não é por os comentários serem todos ou predominantemente 'elogiosos' que essa invasão deixa de existir: a crítica ao corpo de alguém que não se quis expor a essa crítica é sempre uma invasão e uma agressão, e se for pública é-o incomensuravelmente mais.

 

não é por acaso que a exposição da nudez é usada na tortura. ou, se quiserem um exemplo menos extremo, que de um modo geral os nudistas vêem os não nudistas como voyeurs: porque existe uma convenção de poder na observação do outro nu quando estamos vestidos.

 

se tudo isto se aplica às outras mulheres retratadas? claro. mas o nível de intrusão não é comparável porque não sabemos quem são, e porque o alvo da difusão é merkel.

 

o facto de invariavelmente qualquer mulher que se exponha publicamente, na política ou noutra área qualquer, ser antes de mais apreciada pelas suas qualidades físicas, independentemente de quaisquer outras, é de um inegável e muito eficaz machismo: muitas mulheres não se atrevem a aceder à esfera pública porque não estão dispostas a lidar com esse implacável escrutínio. usar a imagem de uma mulher 'pública' nua da forma como a de merkel foi usada é não só machista como um acto de ódio político, com o intuito de escarnecer dela, de a diminuir, de a humilhar. negar isto é impossível -- mesmo se, constato, tanta gente o faz.

 

vou mais longe: se amanhã merkel disser que deu autorização para a difusão da foto continuarei a achar indigna a motivação da partilha. por um motivo simples: se deu autorização para a difusão, merkel não o fez enquanto política, até porque, na altura, não tinha esse estatuto, e porque a foto nada tem a ver com política. poderia surgir numa biografia, num perfil da chanceler, num artigo sobre nudismo. não pode ser usada como forma de combate político.

 

o que subjaz à difusão viral desta foto é ódio -- quer na sua manifestação tão comum da objectificação dos 'famosos' e mais ainda dos políticos (que lhes retira o estatuto de pessoas e portanto todos os direitos que as pessoas se atribuem e reivindicam para si, a começar pelo direito a que lhes reconheçam sentimentos) quer na mais virulenta do combate pessoalizado, ad hominem, que visa destruir, desabilitar, o alvo.

 

não chega dizer que merkel é má política, que está a destruir a ue e a europa com as suas decisões estultas, moralistas e imperiais: temos também de comentar os seus pêlos púbicos, as mamas, as coxas, e se algum dia foi uma brasa em oposição ao camafeu que é hoje?

 

porra, é uma miúda feliz na praia, há mais de trinta anos. se é ela. deixem a miúda em paz: o nosso problema não é com ela. o nosso problema não é sequer com a pessoa merkel: é com o poder que tem, e que a deixamos ter. expor-lhe e discutir-lhe o corpo é só mais um sinal da nossa impotência.

 

(sobre o mesmo assunto, ferreira fernandes no dn)

 

 

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