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O que é relevante em Sarah Palin?

Como o Rogério já referiu, no fim de semana alguma blogosfera norte-americana esteve bastante animada recuperando os rumores que circulavam no Alaskauns tempos sobre a possibilidade de o quinto filho de Sarah Palin ser de facto seu neto. Mas o que fez o tráfico blogosférico aumentar não foram mexeriquices como esta, que poucos subscreveram, mas questões mais relevantes. Aliás, Obama quando interrogado por um repórter da ABC sobre a gravidez da filha adolescente de Palin fez questão de o frisar:

I hope I am as clear as can be, so in case I'm not, let me repeat: We don't go after people's families, we don't get them involved in the politics. It's not appropriate and it's not relevant. Our people were not involved in any way in this and they will not be. And if I ever thought that it was somebody in my campaign that was involved in something like that, they'd be fired.

O que é então relevante em relação a Palin e que de facto ocupou a esmagadora maioria dos que devotaram o fim-de-semana a investigar a desconhecida candidata?

Não é o facto de ser completamente inexperiente em política internacional ou mesmo federal - a sua experiência política reduz-se a menos de dois anos como governadora do Alasca e a dois mandatos como presidente da câmara de uma cidadezinha com menos de 10 000 habitantes -, embora os comentadores conservadores que tanto atacaram a inexperiência de Obama se tenham apressado a dizer que Palin é mais experiente (?) que o candidato democrata, aparentemente pelo facto de o Alasca ser um estado próximo geograficamente da Rússia. Embora muitos analistas questionem a escolha de alguém que há tão pouco tempo admitia candidamente não fazer a mínima ideia de quais eram as funções de um vice-presidente, os pontos relevantes a discutir sobre a candidata não advêm da sua falta de experiência política mas do que essa experiência política indica. Um desses pontos parece ter sido a motivação da tentativa de alteração da entrada da candidata na Wikipedia, o facto de Palin estar a ser investigada por abuso de poder no chamado «troopergate». A história tem a ver com o despedimento de Walter Monegan, o comissário da Segurança Pública, (substituido por um individuo sobre o qual pendia um processo de abuso sexual e que durou quinze dias no cargo) por este se ter recusado a despedir o ex-cunhado de Palin. Não advoga muito em prol da candidata que mal tenha tido algum poder político, como os factos que vieram a lume indicam, o tenha usado para uma vingança pessoal mesquinha. Também não caiu bem em muitos sectores que na sua primeira intervenção pública como candidata no ticket republicano Palin tenha mentido sobre a sua posição em relação à ponte para nenhures, um daqueles desperdícios do dinheiro dos contribuintes sobre os quais foi baseada boa parte da campanha de McCain. «Pork projects» que McCain promete erradicar mas de que Palin parece gostar muito, aparentemente. Palin também mentiu em relação ao que pensa sobre o aquecimento global, ou pelo menos mentiu a sua porta-voz, Maria Comella, que afirmou:

«Governor Palin not only stands with John McCain in his belief that global warming is a critical issue that must be addressed, but she has been a leader in addressing climate change.»

Na realidade, a posição de Palin em relação a este tema está nos antípodas do declarado pela sua porta-voz. Aliás, em relação a todas as questões ambientais as decisões políticas de Palin são concordantes com a sua postura anti-ciência. A candidata que não atribui à acção humana quaisquer alterações climáticas não é muito apreciada pela maioria dos ambientalistas, que recordam, por exemplo, o que se empenhou em permitir o uso de helicópteros para matar os lobos, que diminuem as populações de caribus e alces que são o petisco favorito de Palin, ofereceu uma recompensa por cada lobo chacinado e gastou 400 mil dólares em panfletos para convencer a população da bondade da iniciativa. Também o facto de ter processado o Departamento do Interior por este ter declarado o urso polar uma espécie em risco de extinção faz prever que as suas posições em questões ambientais sejam um factor relevante para uma parte do eleitorado. Diria que são igualmente relevantes as posições de Palin sobre questões sociais, que podem ser apreciadas nas respostas que forneceu a um inquérito elaborado durante a campanha que a elegeu. As respostas de Sarah Palin, uma ultra-conservadora religiosa que se opõe, por exemplo, ao uso de contraceptivos em qualquer circunstância, serão certamente importantes para o eleitorado feminino que apoiava Hilary Clinton. Aliás, diria que muitas mulheres norte-americanas estão completamente chocadas com a escolha de McCain e quanto muito esta escolha as fará voar para votar em Obama. Os únicos que estão neste momento extasiados com a possibilidade de verem um dos seus na vice-presidência são mesmo os ultra-conservadores religiosos, como Pat Robertson, James Dobson ou John Schmalzbauer, um professor de Estudos Religiosos na Universidade Estadual do Missouri que escreveu:

«[E]vangelicals across the country” are excited about Palin. She is one of their own. The fact that she is open to creationism in the public school might scare non-evangelicals in suburban counties up North, but around here that will play well. So will her strongly pro-gun stance. Folks in the Assemblies of God that I know are extremely proud of her. They are also worried that her religion might be used against her».

De facto, embora Palin nos últimos dias tenha afirmado que não pertence a nenhuma denominação nem igreja, aquela que foi a sua até há relativamente pouco tempo tem ligações com «bat-shit crazy religious fanatics», o Exército de Joel sobre que escrevi no De Rerum Natura, pelo que os membros da sua supostamente ex-congregação têm alguma razão em estarem apreensivos. Assim, estas são as razões porque acho que a escolha de McCain foi desastrosa e embora sem grande entusiasmo inicial pelo candidato democrata, este fim de semana tornou-me quase mais obamaníaca que o Rui.

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