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Da ajuda

Em Lisboa é prática corrente há muito: as paragens nos semáforos são momentos em que os automobilistas são convidados a comprar pensos, revistas, bordas d'água ou outro artigo qualquer. Por esse país fora, outra prática também se tornou banal: a GNR faz emboscadas aos aceleras, geralmente camuflada (e assim mostrada pelos media) de "campanha de sensibilização". O fim é o mesmo: sacar dinheiro. No primeiro caso, fazendo apelo ao espírito caritativo, no segundo, como punição. A gente sabe que, se comprar a revists Cais, está "a ajudar" e, se levarmos uma trancada de 120 € por excesso de velocidade, é porque passámos das marcas e pensámos que ninguém estava a ver. E, claro, também estamos a "ajudar" a tornar a dívida sustentável, a amortizar um qualquer swap ou, mais cristãmente, a pagar a reforma da velhinha que vive lá na nossa rua.

Cuidado. Pelas bandas saloias onde vivo, há uma prática que se está a tornar comum. De cada vez que deparo com ela, dou largas ao meu vernáculo, passando, evidentemente, por bruto, malcriado, insensível, snob, sei lá que mais. Ainda há meia hora. E o que mais me irrita não é o apelo em si: deparo com ele a toda a hora, sob tantas formas, nas compras, nas campanhas, nos supermercados, enfim. O que me incomoda é a nova modalidade, digamos, "caritativo-compulsiva" que parece estar a generalizar-se.

O que é? Simples: um grupinho de cobradores militantes coloca-se numa rotunda, se possível (como foi o caso) à saída de uma via rápida, para não haver escapatória. E bloqueia todos os acessos, cada um à vez, metendo-se à frente dos carros e "convidando-os" a parar. Interpelam o condutor com palavras simpáticas e fazem a devida chantagem emocional. Há um ano ou dois vi uma associação de ajuda a deficientes visuais (se não era a ACAPO era parecida) a fazer isto, agora, vai não volta, são os bombeiros. Não percebe esta gente que este "convite" é contraproducente, que as pessoas se sentem "portajadas". E ilegal, evidentemente, mal estaríamos - ou se calhar, já toda a gente acha normal - que qualquer um monte uma barraquinha no meio da estrada e condicione a circulação por uma qualquer motivo pessoal. Temo as consequências, se isto se vulgarizar. Já imagino coincidências e antevejo ter um pesadelo, uma destas noites: a GNR a montar cerco, a mandar parar o trânsito e todo um regimento de coletividades, cobradores, mendigos, fiscais, gente da ZON e da MEO, funcionários das Finanças e vendedores de rifas a assaltar o automobilista.

(Foi um interregno. a "ilha de Cristo" regressa mais logo).

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