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jugular

joão

anteontem à noite, quando já sabiamos que ias morrer, fizemos-te uma espécie de velório de jugas, no nosso mail. de como te tinhamos conhecido, do melhor que e do que melhor lembrávamos de ti (a irene contou esta história fantástica que diz da tua coragem serena, a mesma com que enfrentaste este pavor que te levou), e da falta que ias -- a nós e não só a nós -- fazer. de como te vimos esta segunda-feira, eu, a shyz e o joão (galamba), a contar as tuas histórias de hospital e a fazer-nos rir com elas, da conta de twitter que pensaste criar de propósito -- tinhas um nome e tudo, e eu esqueci-me, era enfermaria, não era? de como pareceste contente por nos ver e de como ficámos contentes de te ver contente, a ponto de acreditar que te veriamos mais vezes, que não era a última.

 

de como parecia irreal que pudesse ser assim, sem recurso, sem argumentação possível (nós, que achamos que podemos ganhar qualquer coisa argumentando). que tu, o nosso mais velho -- foste-o durante muito tempo, até que a irene se juntou a nós -- desde o 5 dias, não continuasses a olhar-nos com a ironia leniente, às vezes cáustica, mas sempre carinhosa, de quem vê miúdos um pouco tontos, frequentemente ignorantes e armados ao pingarelho, em algazarra permanente, a comprar todas as guerras, a ir a todas as brigas, mesmo as que claramente não valiam nem nunca valerão a pena ou sequer a energia. (e de como tantas vezes rompias o silêncio para nos certificar que estavas a ver, e que podiamos contar contigo do nosso lado, por mais parvos que achasses que tinhamos sido em nos metermos ao barulho).

 

de como era óbvio que te divertiamos (a tua cara no primeiro jantar do 5 dias em que estivemos todos, em 2008, e os comentários que fizeste nos mails a seguir, esperto que nem um rato, com as nossas fotografias tão bem tiradas, tão bem anotadas, tão certas) e que sabias que te respeitávamos e que quando nos levantavas a voz (metaforicamente) isso nos deixava inquietos, incertos das nossas razões.

 

de como não te teriamos mais no twitter a dizer a coisa definitiva sobre isto ou aquilo, com a brutal secura do teu insuperável sentido de humor, ou para fazer saber da tua total falta de paciência para bullshit (mesmo que fosse nossa, e tantas vezes foi).

 

de como gostávamos de ti -- e posso, falando por mim, dizer que me surpreendeu perceber o quanto gosto de ti, não porque achasse que não gostava, mas porque me habituei tanto a ter-te por seguro, constante, ali, que nunca tinha pensado nisso -- e da gina, de como o vosso amor um pelo outro nos comovia e inspirava, nos comove e inspira, redimindo de toda a incredulidade.

 

sei, joão, que pensarias 'ah, lá estão eles, de cada vez que morre alguém é isto, era perfeito, era maravilhoso, era extraordinário'. também penso como tu, e confesso que me chateia pensar que se morrer amanhã posso ter toda a bloga e tuitosfera a fazer-me elogios fúnebres desse tipo, ou daquele 'não concordávamos sempre mas respeitava-o muito', 'era um senhor', etc.

 

não, joão. tu eras mesmo espantoso, e foi uma honra conhecer-te, ler-te, ouvir-te (e decorar aquele gesto de puxar os óculos para cima enquanto falavas, aquele sacudir de ombros de quem sacode a estupidez do mundo, a inteligência do teu olhar, o teu sorriso quase imperceptível quando gozavas o prato de uma calinada ou de uma história engraçada, a vivacidade das tuas gargalhadas) escrever nos mesmos blogues que tu, sair de um para criar outro contigo. e saber que gostavas um bocadinho de mim, o suficiente para, um dia, me teres enviado um mail a dizer qualquer coisa como 'conta comigo'. não sei o que te respondi na altura, talvez tenha só dito obrigada (também posso ser lacónica, sabes?). mas era um obrigada mesmo a sério, daqueles que dizem 'fico-te obrigada'. 

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