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jugular

o ovo e o foro

Está no Provérbios Medievais Portugueses, de José Mattoso (col. "essencial", aqueles livrinhos minúsculos da INCM que custavam 100 escudos): "não é pelo ovo, é pelo foro". O ditado refere-se ao pagamento (o foro) que os rendeiros - ou seja, camponeses sem terra - tinham que pagar aos donos da terra. Como muitos provérbios, tem um sentido literal e um figurado, irónico e crítico: a) um foro é um foro, e portanto há que cobrá-lo, ainda que se trate de apenas um ovo (ou seja, uma espécie de versão popular do dura lex sed lex, escuso-me a paralelos fiscais dos nossos dias); b) mas para quem auferia grandes rendimentos, cobrar um ovo era sinal inequívoco de mesquinhez, avareza e insensibilidade, dada a situação provavelmente miserável de quem o pagava. Esta dualidade de interpretações numa frasezinha tão curta e aparentemente inócua sempre me encantou. Aliás, o livrinho está cheio de pérolas idênticas, a maior parte caída em desuso, outras ainda resistentes na memória coletiva e umas deliciosas pelo que revelam de todo um universo mental em regressão (bom, penso eu de que): "o homem fogo, a mulher estopa; vem o diabo e assopra".

Há dias, viajando eu pelo metropolitano de Lisboa em arribada de saloio à grande urbe, fui fulminado por um relâmpago de memória que me transportou ao pequeno incunábulo lido há décadas e ao referido provérbio que lá consta: "não é pelo ovo, é pelo foro". Nem Thor, nem Zeus, nem Seth, nem Xolotl, apenas um singelo aviso numa das portas. Diz que os penetras sem bilhete serão multados. E que a sanção será terrível, entre 100 a 150 vezes o preço do bilhete em falta. Paguei 1,20 pelo meu, o que significa que, se o perdesse e fosse apanhado, pagaria entre 120 a 180 €.  Imagino que quem, há séculos, fosse apanhado a caçar nas coutadas do senhor, também estivesse sujeito a pesadas penalidades. Provavelmente bem mais duras ou, pelo menos, fisicamente dolorosas. Mas nessa altura, presumo, a dureza do castigo dependeria do humor, da gravidade (sei lá, entre um coelho e um mamute), da altura do ano ou de outros fatores mais ou menos aleatórios. No Metro, não sei. Ignoro que me faria pagar 120 ou 180. Os meus lindos olhos, um choradinho, a minha vestimenta, o respeitinho para com o agente, um sinal sincero de arrependimento e uma promessa de nunca mais repetir, será? Ou a magnanimidade de quem fiscaliza?

120 a 180 € não é "um ovo". Talvez para aquela senhora Espírito Santo que diz que gosta de "brincar aos pobrezinhos" o seja. Para mim não é e para um desempregado ou um velho com 300 € de reforma, nem imagino o que seja. Onde está ele, então? Ali. É que para além do multiplicador de centena a centena e meia, o prevaricador tem, ainda, que pagar o bilhete em falta. 100+1 a 150+1, portanto. Quem sabe, 126, pronto, a meio da tabela. Este 1 é "o ovo". Não é que 1 faça grande diferença entre 100 e 150. Mas a lei é a lei, uma coisa é a multa, outra é o pagamento do bilhete, nada de confusões. Também me fez lembrar as execuções na China, em que a família do criminoso tem que pagar a bala. Mas fico-me pelo provérbio. Não é pelo ovo, é pelo foro.

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