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jugular

mijar para a história

O primeiro-ministro mais divertido da história recente é Pinheiro de Azevedo. Que gritava "bardamerda para o fascista", que metia as mãos nos suspensórios para afirmar aos jornalistas, com ar de quem tinha regado bem o almoço, ou, não tendo ainda almoçado, de quem começava cedo, "não gosto de ser sequestrado, é uma coisa que me chateia" (a propósito do cerco de operários a São Bento), que declarou greve do Governo e cunhou o famoso "É só fumaça, o povo é sereno". Almirante, este homem de trato pouco polido e claro sentido de humor dirigiu um dos enésimos governos provisórios do pós-25 de abril, num tempo épico e louco, cheio de som, fúria e esperança, tendo-lhe calhado a ingrata tarefa de pilotar o País entre agosto de 1975 e junho de 1976.

 

Não fosse tão exuberante no linguajar e talvez ninguém o distinguisse hoje dos outros PM desse conturbado período - à exceção, claro, de Vasco Gonçalves, que substituiu. Talvez Passos Coelho, que tinha 11 anos quando Pinheiro de Azevedo tomou posse, pense, por se considerar no segundo processo revolucionário em curso do pós-25 de abril, ser apropriado recuperar a linguagem desbragada de um PM do original PREC - e que, se por mais nada, será ao menos por isso recordado. Há, aliás, se virmos bem, mais paralelismos entre os dois. Onde Pinheiro de Azevedo se via cercado pelos gonçalvistas, Passos crê-se sitiado pelos juízes do Constitucional; onde Pinheiro de Azevedo foi o penúltimo dirigente governamental antes do advento da democracia (as primeiras legislativas), e estava em funções quando a Constituição entrou em vigor, a 25 de abril de 76, o atual PM quis ser o primeiro a rasgar o contrato eleitoral mal tomou posse, fazendo tudo ao contrário do que propusera, tendo como objetivo inconfesso cilindrar a Constituição.

 

De alguma forma, Passos é a antítese de Pinheiro de Azevedo: o segundo pretendeu "acalmar" um Portugal incendiado pelas paixões políticas, o primeiro quer, na esteira de Vasco Gonçalves, reacender o conflito entre patrões e trabalhadores, entre esquerda e direita, entre democratas e autoritários. Pinheiro de Azevedo foi um nome da transição para a democracia; Passos é a cara de um Executivo que se verga a todos os ditados de poderes estrangeiros e estranhos ao primado da representação democrática. Quando, na tão esforçada campanha para umas eleições que alegadamente queria "que se lixassem", usa a elegante expressão "para trás mija a burra", o primeiro-ministro está, afinal, a assumir que, para ele, a história começou a 5 de junho de 2011, quando decidiu implantar um novo regime e, à boa maneira estalinista, redesenhar a realidade, justificando todas as suas ações na paranoia do cerco e da inevitabilidade. Conta para isso com o proverbial "povo sereno". Não podemos saber o que lhe diria cara a cara o desaparecido em 1983 "almirante sem medo", mas podemos apostar que não andaria longe de "bardamerda". E nós?

 

(publicado ontem no dn)

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