Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

jugular

politiquê?

Este post está a marinar há semanas, senão meses. Infelizmente, torna-se cada vez mais oportuno. Escrevo-o hoje como podia tê-lo feito há um ano ou em julho passado, como poderei repeti-lo, desgraçada e previsivelmente, num futuro próximo, sem perder atualidade. O assunto é simples: Portugal não tem política externa, não tem um plano estratégico para sair da embrulhada onde se encontra, não sabe usar os seus trunfos diplomáticos. Não discutirei se a desastrada negociação com a troika resulta de inépcia, provincianismo ou incompetência, ou, tão-somente, de cegueira ideológica.

Tudo começou da pior forma. Seria de todo vantajoso que fosse o anterior governo a negociar e, sobretudo, a executar o resgate financeiro com os credores internacionais.  Um governo que se debate até à última para evitar o resgate financeiro, e que tenta um resgate-sem-resgate (vulgo PEC IV) tem, ao contrário do que se disse na altura, uma vantagem política sobre um governo que emerge com esse propósito. A questão pode ser colocada de modo simples: o país pede ajuda financeira como último recurso, porque está manietado pelas amarras do euro que o impedem de desvalorizar a moeda ou deitar mão de outros recursos tradicionamente utilizados. Capitula económica e financeiramente, mas mantém intacta a sua dignidade nacional, a sua capacidade negocial e a sua política diplomática; pede ajuda internacional a contragosto, contrariado, encurralado. Os credores ficam, logo de início, a saber que têm um osso duro de roer pela frente. Não importa se é verdade; importa, sim, vender esta imagem.

A cada passo, a cada negociação, a cada avaliação, é obrigação de um governo, de um ministro, de um estadista, de um líder, esticar a corda. Cada décima cedida tem um custo social, um impacto em milhões de concidadãos, uma dor em muitas famílias. Diz-se e repete-se isto até à exaustão. Bate-se o pé e faz-se birras, diz-se não, dá-se murros na mesa, faz-se bluff, se necessário, as vezes que forem precisas. Joga-se a cartada nos foruns internacionais, nas instâncias mundiais, nas assembleias e nas reuniões, procuram-se aliados, alinhamentos, convergências, posições de força. Denuncia-se a brutalidade das medidas, a frieza da austeridade, lançam-se dúvidas sobre se este é efetivamente o melhor caminho. Ameaça-se e cede-se, exige-se e contemporiza-se. A diplomacia é isto. Mas uma coisa seria garantida: nenhum negociador da troika sairia de Portugal dizendo que está tudo bem, nenhum Barroso teria o topete de falar em "caldo entornado" (como fez hoje), nenhum banqueiro se atreveria a dizer que Portugal aguenta. 

Um político diria que há protestos na rua, que há desemprego galopante, que há sofrimento, que o país - o meu país - tem um presente sombrio e um futuro incerto. Afinal, o próprio FMI reconhece os custos da austeridade, rebentam escândalos inacreditáveis acerca de subavaliação dos impactos da austeridade, das folhas de Excel mal compostas, dos custos sociais da contração económica, do experimentalismo político-social irresponsável e insensível . Portugal deve, devia, deverá sempre pressionar, esticar, ganhar tempo, suar muito. A arte da negociação é a arte da tensão. Mas que raio. Tudo isto não começou em 2008, do outro lado do Atlântico? Não parecia a Europa invulnerável às ondas de choque? Não nos garantiram que havia uma solidariedade europeia, não é verdade que estamos todos no mesmo barco? E se o governo alegar que não pode subscrever tais níveis de austeridade, que não assinará a ruína do seu povo, que não pode, em consciência, prosseguir na destruição do seu país? Haverá objeção de consciência política? E se o primeiro-ministro ameaçar demitir-se? Provovar uma crise? Sair do euro? Que aconteceria à Europa?

Os credores sabem isto. Sabem que estamos todos no mesmo barco. Mas também sabem que têm este (este, sim, este em específico) governo na mão; que Passos Coelho está no poder porque forçou politicamente a intervenção externa, que apregoou, à boca cheia, a sua intenção de "ir além da troika". Que anda há 2 anos a vender internamente o peixe do vivemos acima das nossas possibilidades, fomos uns perdulários durante anos. Nós em geral, e os governos Sócrates, em particular. Não houve crise mundial, não houve Lehman Brothers nem colapso dos mercados. Houve só esbanjamento de um povo piegas e preguiçoso. Agora, perante indicadores catastróficos (estamos pior, mais endividados, mais desempregados, mais pobres do que há 2 anos), diz que é preciso prosseguir e sai-se com a do "só faltam 3 avaliações", que estamos a sair, mesmo quase tipo coiso a ver o princípio do prólogo do hall do início da antevisão do fim da crise. Não sei se é convicção, se inépcia, se estupidez. Algo será. Política não é, de certeza.

4 comentários

Comentar post

Arquivo

Isabel Moreira

Ana Vidigal
Irene Pimentel
Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Fazem me rir

    So em Portugal para condenarem um artista por uma ...

  • Anónimo

    Gostava que parasses de ter opinião pública porque...

  • Anónimo

    Inadmissível a mensagem do vídeo. Retrocedeu na hi...

  • Anónimo

    "adolescentes e pré-adolescentes pouco dados à int...

  • Anónimo

    apos moderaçao do meu comentario reitero

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

Links

blogs

media