A trilogia dos elementos
Deepa Mehta nasceu no primeiro dia do ano 1950, quando assentava a poeira da separação da jóia da coroa britânica entre Índia e Paquistão, na cidade onde ocorreu um dos piores massacres da história do país, Amritsar, no Punjab. Depois de se formar em Filosofia pela Universidade de Delhi, aquela que é para mim o expoente máximo do cinema indiano, então com 23 anos de idade, radicou-se no Canadá, de onde nunca mais saiu. Este ano, Deepa lançou o polémico Heaven on Earth (Paraíso na Terra) que gravita em torno de um tema sensível mas não assumido da realidade indiana: a violência doméstica. Mas Deepa Mehta evoca principalmente a trilogia dos elementos que a projectou no cenário internacional cinematográfico: Fire (1996), Earth (1998) e Water (2005).
A filmagem da Água, que se centra em Chuyia, uma criança de oito anos que fica viúva no próprio dia do casamento, foi adiada depois de um grupo de fundamentalistas hindus ter destruído por completo o cenário onde a realizadora estava a filmar. Deepa Mehta recriou a cidade de Varanasi e o rio Ganjes no Sri Lanka onde o filme foi finalmente realizado. De facto, esta trilogia provocou fortes reacções dos radicais hindus que queimaram efígies de Deepa Mehta em protesto pelo facto de os filmes não terem sido censurados. Aliás, em relação à polémica indiana com o Código de Da Vinci, o Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS, Corpo nacional dos voluntários), aproveitou os protestos católicos que exigiam a proibição do filme - que supostamente apoiava -, para criticar não só a laicidade do estado como o que considera ser o tratamento preferencial concedido a uma religião ultra-minoritária na Índia, nomeadamente no que ao cinema diz respeito. O RSS, que nasceu por volta de 1925 como vanguarda ideológica do partido hindu, o Hindu Mahasabha criado em 1919 por Veer Savarkar - hoje em dia substituído pelo Bharatiya Janata Party ou BJP, o «Partido do povo indiano» -, prega um nacionalismo sob o slogan «uma nação, uma cultura, uma religião». Voltando a Deepa, todos os filmes da trilogia são obras de rara beleza, e tenho alguma dificuldade em decidir se gosto mais da Água ou da Terra. A história desta Terra decorre em 1947, o ano da independência. Os ingleses saem da jóia deixando para trás a semente do conflito entre hindus e muçulmanos que culminaria com 2 milhões de mortos e o maior e mais terrível movimento de populações da história. A Terra mostra a tragédia através dos olhos de um grupo de amigos em Lahore, na altura indiano agora paquistanês, que assistem à eclosão das guerras religiosas que não mais deixaram esta zona do globo e cuja expressão mais mediática se centra na violência entre hindus e muçulmanos, especialmente na Caxemira de Salman Rushdie. Fora das atenções mediáticas, pelo menos entre nós, outros embates religiosos (ou conflitos de poder disfarçados) nasceram longe da fronteira paquistanesa e envolvem conflitos entre hindús e cristãos, por exemplo em Tamil Nadu:
THE 1980s saw some turbulent developments in Tamil Nadu. The first signs of communal tension appeared in the form of clashes between Hindus and Christians over temple festivals in Kanyakumari district. The conversion of a substantial number of Dalits to Islam in Tirunelveli district received countrywide attention. Hindu communal organisations such as the Hindu Munnani, the Tamil Nadu Temples Protection Committee, and the Vishwa Hindu Parishad made their appearance and slowly began to increase their base in the southern districts. On the pretext of countering "conversion activities by alien religions", seeds of discord were sought to be sown in a State which until then had not experienced any major communal disturbance. The series of "Hindu resurgence" meetings organised by these organisations reportedly had the blessings of Jayendra Saraswathi.
Como nota de curiosidade, o líder religioso que lançou as sementes da discórdia neste estado, Sri Jayendra Saraswathi, foi acusado em 2004 e depois em 2006 de ter assassinado um antigo contabilista do templo que dirige, causando grandes distúrbios no sul da Índia. O caso arrasta-se até hoje e será curioso ver o seu desfecho. Mas se é possível traçar a génese dos embates religiosos em Tamil Nadu, noutros locais estes antecedem 1947. Mais concretamente em Orissa, que foi a primeira província da Índia independente a legislar sobre conversões entre religiões. Os Freedom of Religion Acts de Orissa, posteriormente emulados em outros estados, alguns num passado recente, estipulam que ninguém pode «convert or attempt to convert, either directly or otherwise, any person from one religious faith to another by the use of force or by inducement or by any fraudulent means». Estes Actos estão na origem dos confrontos religiosos que recrudesceram nos últimos tempos naquela que é uma das zonas mais pobres da Índia, com 70% dos habitantes vivendo abaixo do limiar de pobreza. O tema é abordado numa entrada na Wikipedia muito disputada (e, consequentemente, muito boa para já e que promete ficar melhor) que traça as raízes históricas do problema e se centra em dois pontos: a violência no Natal de 2007 e a que explodiu em Agosto passado e que ontem o governo de Orissa, na voz do seu ministro Naveen Patnaik, assegurava estar sob controle. Este último surto de violência foi despoletado pelo assassínio em 23 de Agosto do lider religioso (e político) Swami Laxmana Nanda Saraswati e quatro dos seus associados do Vishwa Hindu Parishad (Conselho Mundial Hindu ou VHP), o braço espiritual do nacionalismo hindu. Embora existam dúvidas sobre a autoria dos atentados, o VHP atribuiu-os a retaliação dos cristãos locais em relação à campanha de Saraswati contra a conversão forçada ao cristianismo . Em 24 de Setembro, de acordo com o All India Christian Council (AICC), a onda de violência que alastrou de Kandhamal afectou pelo menos 50 000 pessoas de 300 aldeias. Cerca de 4000 casas e 115 igrejas foram queimadas e há 45 mortos cristãos confirmados e 5 desaparecidos. No início de Setembro, o New York Times foi ao cerne do conflito, francamente mais complicado que simples confrontos religiosos e que passa pelo sistema de castas, pelo tribalismo e pela pobreza do distrito de Kandhamal, onde há cerca de 20% de cristãos que pertencem maioritariamente aos intocavéis Paana.
Non-Christians have long resented the conversions — the most recent Indian census, in 2001, states that 2.3 percent of the population is Christian — but tensions have increased as India’s economy has taken off. Christian missionaries in India have focused on indigenous and lower-caste groups, including untouchables, or Dalits. Despite laws dating almost from Indian independence, Dalits are often discriminated against or worse. They are sometimes denied basic amenities, such as clean water; relegated to hazardous jobs; and raped or killed because of their social status. Conversion to Islam or Christianity does not erase caste identity, but Christianity and other non-Hindu religions offer a possible escape by providing schooling for anyone who wants to attend, including Dalits. Christian education often includes classes in English, which are crucial for anyone who wants to join India’s service businesses or to break into even the lowest levels of the information technology industry fueling much of India’s growth.
Em 27 de Agosto, a CNN-IBN juntou no Face The Nation Ram Madhav, porta-voz do RSS, o reverendo Richard Howell, secretário-geral da Evangelical Fellowship of India e Manoranjan Mohanty, do Council for Social Development. Vale a pena ver as três partes de um programa muito interessante, que de facto nos permite apreciar três faces de uma mesma nação. Estes conflitos que prosseguem em Orissa e províncias circundantes têm sido descritos como uma perseguição aos cristãos em títulos como «Índia: violência contra cristãos continua». Mas na realidade, esta violência que agora opõe cristãos e hindus e mais frequentemente envolve estes últimos e muçulmanos é apenas um sinal exterior de um «mal» mais profundo que tem a ver com a própria organização da sociedade indiana. Entre outros factores, a Índia embora laica no papel não o é de facto na prática, como ilustra a existência de códigos civis diferentes para as diferentes comunidades religiosas. A perigosa mistura de religião e política exponenciada por seis anos no governo do BJP, que levantou muitas interrogações sobre os limites do secularismo neste país, ajuda a perceber os frequentes embates inter-religiosos. A trilogia dos elementos de Deepa Mehta assenta num elemento em falta, a religião e sua reflexão na sociedade. Os pais da independência tentaram criar um Estado laico, que abolisse as diferenças de castas e de religião. Não o conseguiram logo na sua incepção e os militantes muçulmanos preferiram criar seu próprio país, o Paquistão. Também não custa lembrar que o assassino de Mahatma Gandhi (não muito consensual entre, por exemplo, os sikh) pertencia ao núcleo mais fanático do RSS (o chamado Hindu Rashtra Dal) ou que Indira Gandhi foi morta por guarda-costas sikh que pretendiam vingar a invasão do Templo Dourado de Amritsar. Nesta delicada e complexa trama de relações entre ideologia, relações sociais, política e religião, cresceu uma Índia de contrastes em que é difícil distinguir o que é militância religiosa do que são «cavalos de batalha» para marcar pontos (ou pontes) políticos.

