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jugular

acima das possibilidades

ontem à noite, desci a avenida da liberdade a pé com uma amiga. vínhamos a conversar sobre umas chatices de trabalho, e a reparar, aqui e ali, nas montras, mais nas lojas, tantas, que estão para abrir. reparámos também nos sem abrigo -- mais do que o costume, pareceu-me, embrulhados em mantas, sacos-cama, sós ou em pequenos grupos, mais pungentes ainda à frente daquelas montras onde um par de peúgas pagaria uns meses largos das suas vidas.

 

não sei se caso não tivesse lido, há muitos anos, o palácio da lua, de auster, olharia para sem abrigo como olho desde então: tentando perceber o que será não ter nunca um lugar só meu onde regressar, uma porta para fechar, paredes seguras, uma cama, luzes que se apagam. não ter coisas minhas, a familiaridade reconfortante, acariciadora, dos objectos escolhidos para viver comigo, em memória sólida do que sou, de quem sou. não poder dizer 'vou para casa'. cada dia assim, sem saber onde vou dormir, onde vou correr o risco da total desprotecção, sabendo que tudo me pode suceder quando fecho os olhos, sabendo que o melhor que me pode suceder é não existir para quem passa. sabendo que tenho de me habituar a isso que nunca pode ser um hábito, conformar-me como se não me lembrasse de outra vida, como quem nunca mais espera mais.

 

vínhamos a falar disso quando, a meio da avenida, sob uma escada exterior, nos deparámos com uma espécie de sala. havia um tapete, e sobre ele uma mesinha, ou banco, com um vaso de flores de plástico, e ao lado outro vaso também com flores. tudo, em volta de um corpo (ou dois, nem conseguimos perceber) adormecido, estava disposto com o cuidado de quem decora, faz bonito. de quem reclama um espaço como seu. 

 

parámos a olhar. não conseguimos fotografar, mesmo se era tão óbvio que estavamos perante algo de espantoso, de inusitado, um world press photo ali à nossa frente, resposta a tudo aquilo de que falávamos, a tudo aquilo em que vínhamos a pensar. alguém dispusera ali tudo o que tem, tudo o que lhe resta, para fazer daquele bocado de rua, por algumas horas, um lugar reconhecível, familiar, ordenado. não se tratava, como víramos mais acima, de, por exemplo, pôr a cabeça dentro de um caixote de papelão para a proteger do frio e da luz e dos olhares, pensar formas de tornar mais confortável, mais seguro, aquele pavor. ali era outra coisa, muito mais que expedientes. ali era resistência. 

 

pensámos, claro, que podia ser alguém que está na rua há muito pouco tempo e por isso ainda não se habitou a viver com o estritamente indispensável, seja lá isso o que for (dispensar tudo aquilo que foi e quis e sonhou?). pensámos que aquilo podia ser só outra forma de patologia, porque sabemos que a maioria dos sem abrigo endoidecem um bocadinho -- como não. e, durante um bocado, talvez não tenhamos pensado nada a não ser na irrealidade que advém de nos depararmos com a perfeita concretização de uma ideia. como se o que víramos fosse uma instalação artística, daquelas um bocado literais, a ilustrar a noção nietzschiana de que são as coisas inúteis que nos livram de morrer da verdade.

 

não sei porque é que aquela pessoa ou pessoas fizeram aquilo, se o fazem sempre ou se calhou ontem, vez sem exemplo. não sei se quero saber. como jornalista, devia, queria. perguntar o que era aquilo e porquê, e que significa para quem o faz. mas temo que a resposta não esteja à altura daquelas flores de plástico.  

 

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