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jugular

zica, 1963/2013

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

viram a tua foto no meu fb e perguntaram-me 'era alguém?'. como quem diz: deveria saber quem ela foi, publicar uma notícia?

 

eras alguém, claro. como toda a gente é -- claro. mas o que tinhas só teu como explicar a quem nunca ouviu falar de ti?

 

o mesmo problema quanto ao . mas no caso do zé podíamos dizer 'fez as noites longas'. mesmo se o zé seria o zé e grande sem ter feito as noites longas -- porque o que o zé tinha e era, como o que tu tinhas e eras, não tem nada a ver, especificamente, com fazer ou ter feito alguma coisa.

 

de que posso então falar? de seres tão tão bonita, uma gueixa de porcelana e gestos lentos no rock house, no frágil e no trumps, a espantosa roupa feita por ti (mesmo costurada, não só desenhada, por ti) ou em assemblage de peças vintage, quando em portugal ninguém conhecia sequer a palavra, numa mistura de fifities com forties e japão, os passos curtos nas saias hiper travadas, as mãos longas de unhas compridas sempre impecavelmente pintadas de vernizes de todas as cores que conseguiamos encontrar (e o drama quando partias - partiamos - uma unha), o cabelo ripado com laca (e tu bêbada em frente do espelho minúsculo do rock house, a tentar acertar na torre de cabelo e a sprayar a cara da pessoa na fila indiana atrás de ti), as tuas conversas de fim de noite -- olha, fernanda, olhaaaa --, a espetares-me o dedo no braço e a partilhar o teu riso silencioso, interminável, de lábios escarlate. o corpo esguio, estreito, a cintura impossível de cós sempre alto e justo como nos filmes anos 40 (e como ficavas irritada quando alargavam), as nossas conversas -- de que falávamos nós? música, vocalistas, filmes. e roupa, lojas secretas de coisas antigas descobertas num primeiro andar da rua dos sapateiros ou da conceição, uma fábrica de cintos num último andar da rua dos correeiros, uma outra de luvas na praça da figueira, fivelas nas retrosarias, tecidos no eduardo martins, na casa penim, na tatá rodrigues, nos david, no paris em lisboa, nos souzas, cabedais no lopes & lopes, o sabão ou gel certos para pôr o cabelo em pé, a última exposição de um dos pedros (casqueiro, calapez, cabrita reis, croft).

 

oh, éramos fúteis, deliciosamente, sim. sempre com o nosso wilde na boca (só as pessoas fúteis acham que a futilidade é uma coisa fútil). miúdas de uma raça nova, a fundar um novo império.

 

mas como dizer o deslumbramento? como dizer-te a quem nunca te viu, a quem não tem a mínima pista sobre esses poucos anos de ouro -- de prata, chamou-lhes mário cabrita gil, o autor desta foto -- que hão-de ser aquilo a que se costuma chamar 'o nosso tempo', esse espaço delimitado que foi só nosso antes de ser de todos (tanta gente, toda, no nosso santuário, nunca falámos sobre isso, que acharias tu?) e onde, a salvo das bocas e agressões do resto da rua, podiamos andar com o nosso negro total, os nossos ombros desproporcionados, enchumaçados, de blade runner, as nossas saias travadas e meias de rede e saltos agulha e botas da tropa e cabelos em pé, como em casa (melhor, muito melhor que casa, aliás)? 

 

como explicar a quem não sabe o que foram os anos 80 -- esses, os nossos -- e esse bairro alto que sem ti, como sem o zé, não seriam esses anos 80 e esse bairro alto?

 

e que ires, com ele, assim, nos dois meses finais deste ano, é como que o toque a rebate sobre tudo isso, a certificação de que se fechou o ciclo, que somos crescidos, grandes, adultos, velhos (meu deus, velhos, nós, zica?) que esse lugar onde fomos tão desvairadamente felizes e irmãos, esse reino da nossa aristocracia de vontade e desafio se foi, não volta, cada vez mais fantasma por cheio que esteja. 

 

que nos fins de noite, nas pistas de dança onde ainda vamos, teremos espíritos -- os nossos espíritos, os vossos -- por companhia.

 

surpreendidos, num sorriso complacente, doce: ainda aqui estás? 

 

alguém tem de ficar para o fim. i got this.  

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