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madonna minha

Como será ser Madonna? Como será ser o supremo ícone pop e ter 50 anos, como será fazer ginástica de três em três minutos, comer sabe-se lá o quê receitado por quem, retocar aqui e ali e ali e aqui, butox, bisturi, laser, todas as técnicas de rejuvenescimento que o dinheiro pode pagar até chegar a esta cara que é ela, a dela, mas não é a mesma cara que conhecemos há 20, 15, 10, cinco anos? Como será ser isso tudo e dizer coisas como “as pessoas andam obcecadas com a aparência”, como diz à edição de Maio da Vanity Fair? Que pensa Madonna dela própria? Que espera ela de si, que espera ela que os outros esperem dela? Nenhuma resposta para isto: para saber o que é ser Madonna é preciso ser Madonna. A rapariga material de rosto um pouco vulgar e lábios finos de 1984 que 24 anos depois parece uma ninfa de Botticelli madura e futurista, uma heroína de BD esculpida a aeróbica e ioga e tudo o que o dinheiro, muito dinheiro, pode pagar, lábios cheios e rosto alisado, aristocrático como a nova voz, a voz cheia, suave e modulada de Frozen que sucedeu à voz pato donald de Holliday. Madonna, Madonna.

Tantos títulos, páginas e páginas de teorias e ensaios sobre este mistério. A filósofa e crítica literária americana Camille Paglia intitulou-a “a maior contribuição para a história das mulheres”, por ter “juntado e curado a ferida das duas metades da mulher: Maria, a Virgem e santa mãe, e Maria Madalena, a prostituta”. Em 1994, o escritor Norman Mailer, que celebrara Marilyn como a rainha trágica da América, chamou-lhe, na revista Esquire, “a rainha americana do sexo” e “filha bastarda de Warhol”. Ela, de vinil negro na sua versão Erotica, riu-se: “ooops, I didn’t know I couldn’t talk about sex”. Mas a altivez envernizada de Madonna encerra um paradoxo. Nascida como Warhol do vazio —  existencial, narrativo, emocional — da segunda metade do século XX, ao invés de, como o nomeado pai, reduzir tudo a uma brilhante superfície e negar, sempre, a alma (ou a essência, ou a profundidade, ou o coração), quer a todo o custo provar o contrário. Que sob o glamour, sob a embalagem pop que ela tão laboriosamente (ou tão naturalmente?) é, há qualquer coisa de maior, qualquer coisa disso a que se costuma chamar verdade. Diz ela, na entrevista à citada edição da Vanity Fair: “Tudo o que faço é biográfico”. E garante: “Não posso evitar”. Em sintonia, o crítico cinematográfico João Lopes encontra-lhe uma componente trágica, uma ferida primordial que ele situa na morte da mãe aos sete anos, cantada em Mer girl, 1998 (“I smelt her rotting flesh, her decay, I ran and I ran, I’m still running away”). Trágica, Madonna? Mailer parecia achar que não. “Admirada, mas não amada”, escreveu. Precisamente porque, ao contrário de Monroe (de quem, já foi dito, ela é a vingança), a loira que mantinha os seus segredos e horrores lá dentro, para nos oferecer só a divinal doçura do seu rosto, esta loira não se imola por nós. Sobrevive. Desafia. Resiste. Ironiza. “É preciso ter um problema com a bebida ou as drogas. É preciso entrar e sair de clínicas para que as pessoas tenham pena. Ou é preciso cometer suicídio, basicamente. O facto é que nenhuma destas coisas me aconteceu.” (na Esquire citada, Madonna por si própria). Nada disso lhe aconteceu, não. Nenhuma desgraça, nenhuma queda, nem sequer ainda a decadência, apesar da espiritualidade tardia. Nem grande cantora, nem grande compositora, nem sequer grande bailarina nem bela de cair, que tem então Madonna de grande senão o facto de nos trazer hipnotizados (mais hipnotizadas) pela sua vontade, energia e resiliência? Cada canção como uma página arrancada ao seu diário, uma etapa mais do seu caminho, uma passagem mais sobre o abismo. It’s called survival – a cena dela, o mistério dela. Um evangelho carnal, profano, biográfico – entregue por nós (publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine a 16 de agosto -- dia dos anos dela)

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