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jugular

como se eu fosse muito burra

Há uns meses, assisti a uma reportagem da Sic sobre a Baixa. Sobre as pessoas que lá vivem, mais exactamente no Rossio. Os entrevistados incluíam uma família jovem que para ali se mudara há pouco tempo e falava da experiência, do movimento e da vista da praça com entusiasmo. A reportagem terminava  com uma bela imagem nocturna da praça vazia, aludindo porém não à beleza mas à “desertificação” e à “insegurança” da Baixa à noite. Enquanto se espera pela anunciada requalificação que é central nas promessas eleitorais há uma década (e já lá vai um ano, senhor presidente da Câmara), o discurso mediático mantém-se enquistado em mitos. É certo que a Baixa necessita de mais habitantes. Mas não é a falta deles que a transforma num deserto à noite. Qualquer bairro residencial que não tenha estabelecimentos abertos à noite está deserto a partir das 8. Aliás, há bairros residenciais muitíssimo habitados que estão desertos a todas as horas do dia, como é o caso da Lapa. E, como deve ser para toda a gente óbvio, o que faz o movimento nocturno no Bairro Alto não é decerto o nível de residentes. Mais: o movimento nocturno intenso, com o que traz de barulho, é algo que nenhum residente deseja no seu bairro. O problema, portanto, está longe de ser a desertificação nocturna de uma zona que durante o dia, juntamente com o Chiado, é uma das zonas mais movimentadas de Lisboa e onde um passeio atento permite perceber várias coisas.

A primeira é que, ao contrário da ideia feita de que a Baixa não é atractiva ao investimento privado, estão a surgir uma série de novos e interessantes estabelecimentos comerciais, entre restaurantes e hotéis, e as lojas continuam a disputar o espaço disponível. Outra é que um dos motivos pelos quais a zona não tem mais habitantes são os preços proibitivos que estão a ser pedidos pelos fogos disponíveis, preços esses que aliados à degradação geral da zona -- o estado incrivelmente esburacado do piso, a ruína de uma parte dos prédios, o tráfego intenso de atravessamento, a dificuldade de estacionamento para residentes, a deficiente recolha de lixo, a baixa qualidade estética de grande parte do comércio – afastam os potenciais moradores e chegam a expulsar os que ali se fixaram. Parte das medidas anunciadas pela autarquia para a Baixa, como a criação de um museu ou o estruturar de ruas como “centros comerciais” soam  um pouco saloias, pensadas “de fora” e para quem visita. Quem visita a Baixa visitará sempre porque é a Baixa. Pensar para o turismo é interessante, mas antes de desenhar museus resolva-se o básico: um piso em que não se escorregue, tropece e entorte os pés constantemente e no qual os carros não estremeçam como em caminho de cabras, ruas e não vias rápidas (não se pode parar um táxi ou um carro nas ruas da Prata e do Ouro em nome da sacrossanta “fluidez” do tráfego) livres de sacos de lixo e limpas, a classificação das lojas e o fim da sua destruição paulatina com substituição de ferros forjados por inox e de mobiliário secular por balcões de vidro à dúzia (parece que o museu que vem aí é de design – que tal manter o design na rua, hã?), garantia de lugares de estacionamento para residentes e o assegurar de estruturas básicas como um mercado semanal de frescos (tão comum na generalidade das grandes cidades europeias) e de espaços para crianças. Falo apenas de competências camarárias -- a reabilitação do edificado, vital mas a depender na maioria dos casos de iniciativa privada, não se inclui nesta lista, assim como a alteração dos horários das lojas. Falo de coisas básicas, e nem todas dispendiosas. Coisas que não consigo perceber como estão ainda por fazer na zona mais simbólica da capital. Alguém me explica, por favor, porque é que tardam tanto? (publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 24 de agosto)

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