Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

jugular

Guerras da água benta

Hoje tivemos um rol de exemplos de como o catolicismo anda tão excluído da res publica, tão oprimido, tão angustiado com a vida, que não houve telejornal que não transmitisse em horário nobre a indignação clerical por tal estado laicista de coisas.

Tão penoso dia foi certamente consequência daquele momento que a Igreja não perdoa e verberou na frase excelsa da laicidade clerical inclusiva, proferida por Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa e porta-voz do episcopado: «depois do referendo sobre a IVG a sociedade portuguesa pensou que era laica».

Esta desatenção da sociedade nacional tem sido corrigida veementemente nos últimos tempos por aquele que, embora preterido nas eleições de hoje para dirigir a CEP, parece ter sido promovido a comissário político do Vaticano na luta contra o PS (e a laicidade).

O mesmo Carlos Azevedo sente-se tão excluído da coisa pública pelas invectivas do «estado militantemente ateu», pelo laicismo desenfreado de alguns ministros, que deu hoje mesmo uma conferência, transmitida na íntegra pela televisão pública, a explicar isso mesmo e muito mais que o tem incomodado.

Nas muitas intervenções para os media em que foi pródigo nas últimas semanas, o ilustre prelado não escondeu esse incómodo evocando à exaustão, em panegíricos solenes, o papel social da Igreja como justificativa das bananas interferências arbitrárias que nos quer impingir; recolheu-se comovido perante as campas da memória de ilustres mártires do Afonso Costa que verberou muitos hoje se sentirem filhos, lamentou o lugar adquirido pela mulher dos anos 80 para cá - uma posição que inquieta a Igreja e que se deve à mutação cultural que propiciou flagelos como o individualismo, o relativismo ou o laicismo -, e prometeu-nos um repensar do estilo de evangelização que nos remeta ao diálogo com os nossos egrégios avós e, por arrastão ao passado, à erradicação destes males modernos.

E o que está no cerne da crispação que despertou para o combate político uma Igreja «pouco mais do que passiva» no que respeita «à ofensiva do Governo contra os capelães hospitalares e prisionais», «branda e descoordenada» no referendo do aborto ( se com folhetos terroristas distribuídos em infantários, ameaças com o Cânone 1331 que excomungaria os que votassem SIM no Referendo, a campanha da Igreja foi branda e descoordenada até estremeço ao imaginar o que seria para o prelado uma campanha dura…) ? Deixemos o bispo auxiliar de Lisboa explicar pelas suas próprias palavras:

«a Lei da Liberdade Religiosa aplica-se às confissões religiosas, mas não à Igreja Católica».

Ficámos assim a saber que aparentemente as outras religiões não passam de meras confissões religiosas mas a Igreja Católica é muito mais que isso, como dizia o bispo numa entrevista recente à TSF, é «a verdade objectiva» que apenas o relativismo, isto é, os erros do pensamento moderno, justifica não seja reconhecida pela população em geral e pelo governo em particular - que não legisla de acordo com a vontade da Igreja e não obriga todos, católicos ou não, a submeterem-se à única «verdade objectiva». Isto é, para a Igreja só há uma verdade: a sua. A Igreja defende a tolerância … mas apenas para o que é a sua verdade.

É à luz destas revelações que deve ser entendida a ode ditirâmbica à tolerância segundo a CEP de Jorge Ortiga, o arcebispo de Braga hoje reconduzido na presidência da Conferência Episcopal Portuguesa, que tanto baralhou a Fernanda.

Isto é, a laicidade para a Igreja Católica significa separação biunívoca entre religião e Estado apenas para meras confissões religiosas. No caso da Igreja Católica significa simplesmente, como ilustrou o prelado na tal entrevista (sicofanta) de Manuel Vilas Boas, que a Igreja está acima das leis do Estado, por exemplo no caso da reforma de Januário Torgal Ferreira - estranhamente num país com um governo tão militantemente ateu, bispo das Forças Armadas. Mas para o comissário político da Igreja, o Estado deve submeter-se às leis da Igreja, isto é, a tal «laicidade inclusiva», adjectivação da laicidade que tem marcado indelevelmente o léxico eclesiástico nos últimos tempos, significa que «é mais um sinal claro da postura de afrontamento que o actual Governo assumiu relativamente à Igreja Católica» não aceitar que o nosso Direito deve ser regido pelas leis canónicas.

A Confederação Episcopal Portuguesa parece assim querer ressuscitar os ícones políticos que povoam o seu relicário mental, imaginário de quem se considera detentor das verdades absolutas, reveladas pela mesma reverberação divina que os incubiu da missão histórica de salvar a humanidade mesmo contra vontade desta.

Pessoalmente fico sempre muito comovida com o empenho, diria quasi obsessão, com que alguns se entregam a salvar todos os outros. Até percebo o desinteresse com a salvação própria que manifestam na devoção em não deixar na paz das perpétuas chamas os que se desinteressam da salvação da alma. Mas fico igualmente muito baralhada quer com a descrença nas verdades absolutas e universais de que afirmam ser paladinos quer com a falta de fé nas respectivas capacidades persuasivas que manifestam ao quererem impor no Direito que rege todos, católicos e não católicos, a proibição ou criminalização dos pecados que lhes atormentam as sinapses. E ao susterem que deve ser o Estado a sustentar a proselitização da única religião verdadeira, a deles …

Arquivo

Isabel Moreira

Ana Vidigal
Irene Pimentel
Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Fazem me rir

    So em Portugal para condenarem um artista por uma ...

  • Anónimo

    Gostava que parasses de ter opinião pública porque...

  • Anónimo

    Inadmissível a mensagem do vídeo. Retrocedeu na hi...

  • Anónimo

    "adolescentes e pré-adolescentes pouco dados à int...

  • Anónimo

    apos moderaçao do meu comentario reitero

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

Links

blogs

media