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Guerras da Propaganda

Há uns meses escrevi dois posts no De Rerum Natura que hoje me parece muito apropriado recuperar e que tratam de guerras da propaganda em torno da educação.

 

Deve-se a Dario Hystapis, um dos grandes reis aqueménidas (538-330 a.C.), um fenómeno que perdura até ao século XXI. O monarca atribuiu-se a defesa do Bem e da Verdade, projectando sobre os seus adversários a pecha de serem os defensores da mentira e do mal.

A origem dessa dicotomia ética aplicada à política encontra-se no dualismo original da religião persa, codificada por Zarathushtra ou Zoroastro, em que Ormudz ou Ahura Mazda é o detentor da bondade e veracidade, em oposição a Arihman, o «grande satã», deus do mal e da mentira. Essa dicotomia ética/política atingiu o seu expoente com Mani ou Manes (séc. III), que criou uma religião que pretendia ser «ecuménica», o maniqueísmo, em que foram integrados elementos do hinduismo, zoroastrismo e cristianismo.

Um mural do século XIII, pintado por volta de 1265 e descoberto há oito anos nos banhos públicos da cidade Massa Marittima, na Toscânia, é, na opinião de George Ferzoco, o primeiro «cartaz» de propaganda política na História. É curioso confirmar que embora o teor e forma das mensagens políticas propagandistas tenha evoluído ao longo dos séculos, o seu propósito não variou muito e continua próximo da inovação introduzida por Dario Hystapis.
 

No livro que publicou há quatro anos, o perito em história toscana explica que este mural pretendia ser um aviso aos locais da facção política apoiante do papado romano, os guelfos, para que não permitissem a subida ao poder dos seus rivais políticos, os gibelinos. Os guelfos e os gibelinos constituíam as duas facções que, durante a Idade Média, lutaram por décadas pelo poder em Itália e na Alemanha. Niccolo Machiavelli é certamente mais conhecido pelo seu livro «O Príncipe», mas a sua obra prima «História de Florença», especialmente a partir do capítulo V, ilustra magistralmente este episódio de uma Itália dividida por guerras fraticidas.

No dito mural propagandístico domina uma árvore deveras peculiar, já que os seus ramos estão recobertos de exemplares sortidos de uma parte específica da anatomia masculina. Debaixo da árvore são representadas mulheres, que Ferzoco diz simbolizarem bruxas. Estas «bruxas» entregam-se a uma tarefa muito popular, de acordo com a mitologia dominante à época*: o cultivo em ninhos de aves desses apêndices masculinos, previamente roubados a incautos, que depois de assim tratados adquiririam vida própria. Duas das mulheres representadas parecem lutar pela posse de um destes magicamente cultivados e animizados orgãos. Outra é sodomizada por um dos vinte e cinco «objectos» voadores.

A relevância desta última representação é explicada por Ferzoco: «Na Idade Média, os heréticos dedicavam-se a uma coisa em especial e essa coisa era a sodomia. Para a mente italiana medieval, tal constituía um acto que exemplificava o agir contra natura, desarmonia, e falta de sentimento de comunidade».

Assim, neste cartaz político pioneiro, os detentores do poder político advertem quer os habitantes quer os visitantes de Massa Marittima para os horrores da oposição - os gibelinos, cujo símbolo era a águia representada igualmente no mural -, que procurava o domínio da cidade toscana. Neste cartaz maniqueísta, a oposição é retratada como apologista do que era considerado o comportamento mais anti-social da época e os cidadãos eram advertidos das consequências - heresia, perversão sexual, feitiçaria e caos -, da sua eventual ascensão ao poder.

Os efeitos das tácticas propagandísticas desta época conturbada da História podem talvez ser bem apreciados numa pequena vila medieval da Toscana que dá pelo nome San Giminiano, situada no topo de uma colina de 334 metros. A pequena cidade foi arrastada no turbilhão político que varria a Itália e ficou sob domínio de duas famílias rivais, os Ardinghelli (guelfos) e os Salvucci (gibelinos). Como demonstração de força, as duas facções começaram a medir-se em «altura» propagandeando o seu poder construindo torres mais altas que os adversários políticos.

A mais alta torre que sobrevive, a Torre Grossa na Piazza del Duomo, tem 54 metros, o equivalente a um prédio de 18 andares (a sua construção foi iniciada em 21 de Agosto de 1300, quatro meses depois de a cidade ter hospedado Dante Alighieri).

As largas dezenas torres construídas eram fantásticos e mui admirados (hoje em dia) monumentos à irracionalidade política medieval: não tinham qualquer utilidade prática para além de servirem de propaganda política, aliás eram tão altas que os primeiros andares, para conseguirem suportar a estrutura, não tinham nenhum espaço utilizável.

Quando já não havia mais lugar onde construir torres, as famílias envolvidas nesta guerra de poder descobriram que uma alternativa para ter a torre mais alta era deitar abaixo a torre da oposição. Uma conjunção de factores, a que não são alheios a irracionalidade política e a peste negra, levaram à degradação de San Giminiano, que de um dos mais florescentes centros italianos medievais, rota de comércio no coração da Via Francigena e o principal produtor de açafrão, se transformou numa cidade em ruínas.

Não sei bem porquê, mas os debates sobre educação que se tornaram conversa incontornável nos banhos públicos da actualidade desde que o YouTube descobriu os problemas de disciplina nas nossas escolas, recordaram-me esta história. A tragédia educativa nacional, revelada nos resultados do último PISA, não se resolve com debates propagandísticos, muitas vezes maledicentes e invariavelmente sem qualquer utilidade prática a não ser meças de alturas sortidas.

Mas esta tragédia educativa não é uma novidade em português: o Carlos Fiolhas no livro «A coisa mais preciosa que temos» (Gradiva, 2002), faz o retrato (negro) do ensino em Portugal nos últimos 200 anos no capítulo «Atraso Português». Vale a pena (re)ler o livro e olhar para os dados que o Carlos nos fornece. O combate ao atraso educativo português foi a prioridade da 1ª República - sobretudo no que respeita à alfabetização da população portuguesa, com mais de 80% de analfabetos em 1910 - mas este atraso foi consolidado pela ditadura salazarista. Só em meados do século XX Portugal viu o que o norte da Europa conseguira antes de 1700: metade da sua população alfabetizada.

Assim, a massificação do ensino no pós 25 de Abril foi uma necessidade que, talvez evitavelmente, sacrificou qualidade por quantidade. Trinta e quatro anos depois, importa agora tornar o ensino público eficiente e de qualidade, diria mesmo que esta é a tarefa mais importante da nossa sociedade. Claro que haverá sempre discussão acalorada acerca da melhor forma de o implementar. Mas a discussão de ideias é a essência da educação.

Urge no entanto que essa discussão não seja permeada pela praga dos tempos modernos, o anti-intelectualismo que deixa «o papel educador e orientador» «tomado e monopolizado pelo burocrata acadêmico, pela estrela da mídia, pelo agente editorial, pelo administrador político».

Importa sobretudo reformar linguagens, recuperando palavras como elite. Quando, por exemplo, se liquidou o ensino profissional em nome da luta contra o elitismo, na realidade elitismo foi pensar que o único ensino «digno» era o clássico. Este anti-elitismo destruiu o ensino profissional baseado no conceito perverso de que se estava a travar uma luta contra o elitismo liquidando o ensino técnico (e mediocratizando posteriormente o clássico). Embora alguns velhos do Restelo se percam em reminiscências sobre as supostas glórias educativas de outros tempos, suponho serem poucos os que advogam um retorno ao passado. Como escreveu em Março o Rui Tavares no Público «A opção que resta é dar às massas uma escola de elite». Mas para isso importa sobretudo reformar consciências e recuperá-las de um maniqueísmo político medieval que o país não pode continuar a ostentar!

*Como o autor relembra, numa passagem do Malleus Maleficarum, o manual de caça às bruxas, monges indicam ser prática das bruxas «a recolha de orgãos sexuais masculinos em grandes números, tantos como vinte ou trinta, e colocam-nos num ninho de pássaros ou fecham-nos numa caixa, onde eles se locomovem como membros vivos e comem aveia e milho, como tem sido visto por muitos e é alvo de descrição comum».

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