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da tasca ao gourmet

Coisas que nunca entendi: por que ser medíocre quando se pode ser bom. Por que ficar pelo óbvio, pelo igual, pela imitação, quando se pode imaginar diferente. Por que acertar pelo mediano quando se pode apontar ao excelente. Não, não estou para aqui a armar aos cucos (seja lá isso o que for e seja lá por que for que “cucos” é sinónimo de pretensão). Estou mesmo a falar de coisas comezinhas, aliás de comer. De cafés e pastelarias e assim, do panorama deprimente da oferta portuguesa, da triste evidência dos balcões repletos de bolos ressequidos, papo secos encortiçados, queijos plásticos e  fiambres intragáveis, iguais estabelecimento após estabelecimento, rua após rua, iguais no que vendem e no que oferecem, cadeiras de plástico, paredes e chão de azulejo, luzes azuladas e tremelicar.


Um país que tem queijos sublimes, pães maravilhosos, enchidos deliciosos, uma doçaria interessante (ainda que demasiado doce), abundância de fruta e de receitas de petiscos e, não despiciendo, uma tradição de viagem e migração secular, apresenta na oferta de snacks e cafetaria aquele que é talvez o mais deprimente panorama com que já me deparei no mundo. Não precisaríamos de chegar ao expoente de terras como a Austrália, em que a obsessão com a comida faz de cada café um paraíso de vitualhas apetitosas e saudáveis, ou, dentro de outro género, da Tailândia, em que em cada rua um vendedor ambulante transacciona delícias. Mas podíamos exigir um pouco mais, não? Nunca recuperei do choque de constatar que na Serra da Estrela era quase impossível, num café, degustar uma sandes do respectivo queijo ou requeijão, acepipes reservados para os restaurantes. O mesmo em Azeitão ou no Alentejo, onde nos impingem tostas de flamengo ou queijo de barra. Dizem os responsáveis dos estabelecimentos que a oferta de produtos típicos “não é solicitada” e “seria demasiado cara”. Claro que na sua maioria nunca sequer tentaram outra coisa que não o mínimo esforço, copiando o que viram a outros, e que a cada pessoa que os questiona sobre o facto respondem nunca terem sido antes questionados.

Curioso que venha de fora, com o exemplo do que se faz noutros países ou mesmo em franchising de cadeias internacionais, o regresso de um conceito de café e pastelaria que em Portugal, nos anos 70 e 80, foi destruído. A ideia de um lugar onde se disponibilizam aos clientes jornais e revistas e/ou internet, fomentando a sua permanência, em que se investe no conforto e na decoração e onde se vendem bebidas e comidas imaginativas e requintadas, com recurso, as mais das vezes, a produtos típicos portugueses, é apenas o recuperar de uma tradição de cafés e casas de chá que existiam nas cidades até há 30 anos e que a saloiice e estultícia pseudomodernas escavacaram para os substituir por casas de hambúrgueres e croissants a la minuta, espécie de casas de banho com balcões de vidro todos iguais e pastelaria em série, sem mesas nem cadeiras, concebidas para despachar “buchas” a clientes escorraçados.

Ler nas revistas que abriu aqui ou ali mais um estabelecimento com “um conceito de estar e fruir”, com nomes que metem “gourmet” e listas que incluem enchidos de vinhais ou queijos de Serpa, ovos mexidos com farinheira ou espargos, chás variados e cafés sortidos, não pode deixar de suscitar um sorriso irónico. Aquilo que as velhas tascas e cafés ofereciam e que deveria ser a óbvia opção da generalidade das casas que nas cidades existem para uma pausa mata-bicho surge agora como uma importação de conceito, em forma de luxo e sofisticação “estrangeirados”, uma coisa nova. Enfim. (publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 2 de novembro)

 

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