In Rust we Trust

Algo que me irrita sobremaneira são charlatanices e em especial charlatanices químicas que me entretenho a desmontar já há uns tempos no De Rerum Natura. Os nossos leitores no DRN sabem dessa minha predilecção e volta e meia enviam-nos informações sobre as últimas banhas da cobra a assolar o cantinho, como aconteceu hoje quando abri o mail, que tratava de algo que o leitor em questão suspeitava (com imensa razão) ser uma fraude e que consiste numa coisa que dá pelo pomposo nome «hidrolinfa».
Esta tal hidrolinfa (nunca percebi o fascínio pela água de tanto charlatão...) não passa de uma versão lusa dos Aqua Detox que infestam qual praga o mundo em geral, os países anglo-saxónicos em particular. Em Portugal, são construídas e comercializadas por algo com o nome pomposo MENP - Fabrico de Máquina de Saúde e Ecologia que faz parte d'«O Departamento de Desenvolvimento Tecnológico e Científico (T.S.D. - Technological & Scientific Development), que trabalha em exclusivo para a UPN - Universidade Profissional do Norte».
Na altura disse à pessoa que me inquiriu, só pela descrição, que não é preciso saber muita química, apenas olhar para a água ferrugenta que sai volta e meia dos canos, para perceber o que aconteceu. De facto, os charlatães extorquem dinheiro aos mais incautos com um vulgar banho de pés complementado com eléctrodos que quando ligados à corrente e na presença dos sais com que é temperada a água se corroem. A cor dos sais de ferro que se formam depende do cocktail adicionado à água (é simples ferrugem com água da torneira) e do pH da mesma e não tem remotamente nada a ver com a saída de toxinas pelos poros dos pés (!).Aliás, não percebo muito bem o que sejam as toxinas que entraram no léxico de todos os charlatães das medicinas alternativas mas todas as substâncias tóxicas que produzimos são incolores, nomeadamente «o Colesterol, Triglicerídios, Ureia, Glicose (nunca me passou pela cabeça que um açúcar fosse considerado uma toxina), Creatinina e Ácido Úrico» que os vendedores de banha da cobra afirmam peremptoriamente que «A terapia HidroLinfa, ao coincidir nos poros existentes na planta dos pés, exercita a diminuição imediata comprovada». Na realidade, estas «toxinas» são excretadas naturalmente na urina e na transpiração.
Embora já soubesse da existência da coisa não tinha ideia da sua dimensão e assim agradeço as informações gentilmente transmitidas pelo nosso leitor que me permitiram ler incrédula o monte de dislates químicos com que os charlatães da UPN enganam os mais incautos e que podem ser apreciados em todo o seu esplendor na página em que publicitam a coisa.
Estes são tantos e tão variados, aliás, não há quasi uma linha do longo texto que não seja um disparate químico, que não sei qual me escandalizou mais. Não sei se a afirmação extraordinária de que «toxinas e venenos são incompletos, falta-lhes um electrão negativo» - o que é um total disparate, e não estou a referir-me ao pleonasmo electrão negativo -, ou se as efabulações sobre o hidrogénio, em particular sobre o hidreto (H-), supostamente formado no «Tratamento HidroLinfa, rico em iões negativos, aumenta o número de electrões de carga negativa no organismo humano, aumentando assim os iões negativos que transformam o hidrogénio em (H-)», uma barbaridade total. Assim como é uma barbaridade total dizer que «O oxigénio não actua sem o hidrogénio, a fusão destes dois elementos, transforma-se em energia», um delírio quasi tão idiota como as considerações sobre o ATP ou sobre o equilíbrio de pH fisiológico que o aparelhómetro supostamente mantém.
Sobre este último, é importante esclarecer que nós somos quimicamente muito bem regulados, nomeadamente a nível de pH que é mantido numa gama muito estreita de valores por uma série de tampões biológicos como sejam o que envolve bicarbonato (e o dióxido de carbono), o fosfato e várias proteínas (ficheiro em formato pdf que explica a regulação fisiológica do pH). Mas essencialmente importa esclarecer e sobretudo regular as ditas «terapias naturais» e acabar de uma vez por todas com fraudes magnéticas, quânticas, homeopatetas e afins. Como concluiu o professor Edzard Ernst após ter recuperado da estase em que esteve mergulhado e que o levou a leccionar banhas da cobra sortidas, «A maioria das terapias alternativas são clinicamente ineficientes e muitas são totalmente perigosas».

