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jugular

ir à cara


Tivesse nascido noutro lugar, e é provável que o fenómeno da tourada me fosse alheio. Que o visse como um anacronismo selvático, uma forma primitiva, sacrificial, de celebração da vida e da morte. Que me batesse pelo seu fim, desgostada com a tortura continuada e aplaudida dos touros, as bandarilhas desfraldadas no dorso sangrento, os ferros cravados no gesto largo, triunfal, dos cavaleiros, as mil voltas do capote e da muleta na arena cercada, prisioneira. Que me repugnasse o perfume macho do ritual, o banimento das mulheres reduzidas a troféus ou mães dolorosas.
 


E repugna-me. Agonia-me. O que se passa ali, à frente de toda a gente, e nos curros, longe do público, antes e depois disso a que se chama “festa brava”: a separação do animal da manada, confinado à solidão sombria de labirintos de cimento onde mal se mexe, ele que vem dos galopes largos das lezírias, o embolar dos cornos, a cegueira da arena depois das trevas, e o fim, a carne dorida, sangrenta e febril à espera do matadouro. Agonia-me até o cheiro, mistura de terra e excrementos e sangue e suor. Agonia-me e inebria-me, em partes estranhamente iguais, partes inimigas, eu contra mim.

Nasci numa terra de touradas, Vila Franca de Xira. Tinha sete anos a primeira vez que o meu avô paterno me levou a uma. Explicou-me cada gesto, cada actor, cada sinal. Como distinguir o bom do mau toureiro, o touro bravo do manso. Percebi que na tourada um touro é tanto melhor quanto mais mau – mais perigoso e mortal -- for. Que se louva a bravura como divindade. Que ali se aceita e convoca o repto da dor e da morte e do sangue negado o resto do tempo. Que ali vive um mistério sem chave, um sortilégio escuro e mesmo assim solar. Percebi que não tinha percebido. 

Pode ser que a afición se pegue como uma virose, que colonize o olhar desde a primeira chicuelina, desde a primeira vez que se mede em glória o arco perfeito da pose quando em luzes o toureiro dribla o touro. Pode ser que a arremetida cega, tremenda, do animal que sai cego dos curros e percorre em negro e fúria o redondo da disputa estremeça e acorde qualquer coisa antiga. Uma reverência, uma prece, um medo por expiar. Isso tudo ou outra coisa: sempre por saber. É disso e sobretudo do que fica por entender que se faz a minha perplexidade e o meu desejo. O que é uma tourada? O que é um toureiro? Por que são? Que sentido fazem, que sentido criam? Que conversa há entre o touro e o homem que o enfrenta? Que feudo, que pacto? Que faz deles inimigos? Que faz deles um par? Que faz de mim prisioneira contrafeita desse duelo, súbdita rebelde deste reino?

Num país que ilegalizou as touradas de morte e que as permitiu como excepção barranquenha, depois de um debate aceso mas curto, fala-se pouco ou nada disso a que se dá o nome e o beneplácito de tradição, como se a tradição explicasse tudo – e desculpasse tudo. Pensa-se pouco o fenómeno, como se só interessasse a um reduto de anacrónicos, como se não fizesse parte de todos, como se a sua existência não nos interpelasse a todos. Curioso – ou apenas lógico? – que seja hoje um estrangeiro, um polaco-brasileiro, Julius Kossakowski, num documentário estreado a 5 de Dezembro em Lisboa, Taking the face (Ir à cara/Pegar de caras), a partir para a discussão. Kossakowski vai para a tourada com perguntas essenciais, primeiras: por que existe, para que serve, que argumentos têm os que a defendem e a atacam.

Talvez seja preciso um olhar completamente de fora para notar a estranheza do rito, para aquilatar da sua brutal excepcionalidade. Mas no seu documentário rigoroso, exterior, correcto, Kossakowski fica aquém do essencial. Para ir à cara do assunto é necessário “desnaturalizar” o fenómeno, interrogar, mais que a sua realidade sociológica e cultural, a sua essência. Encontrar a sua espantosa singularidade – estranho para quem o conhece e ama como para quem o ignora e odeia. Selvagem, bárbaro, sim, mas completamente artificial – completamente humano.
(publicado na coluna 'sermóes impossíveis' da notícias magazine de 21 de dezembro)
 

 

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