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Turkish Delights?

O artigo da Fernanda sobre o avanço dos talibans no Afeganistão não me surpreendeu assim como não surpreendeu outra notícia recente sobre o avanço do fundamentalismo islâmico às portas da Europa.  O International Herald Tribune dá-nos conta de um estudo que indica que os muçulmanos não praticantes na Turquia estão sujeitos a pressões muito fortes, por vezes físicas,  para usarem o véu islâmico, participarem das orações de sexta-feira e jejuarem durante o Ramadão.

 

O «Being Different in Turkey - Alienation on the Axis of Religion and Conservatism», conduzido pelo Open Society Institute e pela Istanbul's Bosporus University, indica que está a ocorrer uma mudança de estilo de vida dos turcos mais laicos que sentem uma pressão muito forte para pelo menos fazerem de conta que são crentes devotos e assim se conformarem às alterações introduzidas pelo primeiro ministro Recep Tayyip Erdogan e pelo seu partido islâmico. De facto, há muito que o partido do governo, AKP, tem sido repetidamente acusado por grupos seculares de tentar forçar um estilo de vida islâmico ao mesmo tempo que implementa reformas «ocidentais» desenhadas para facilitar o processo de adesão à CEE, que assobia para o lado em relação à deriva fundamentalista e louva essas supostas reformas.

 

Desde que Erdogan tomou o poder, depois de um período de nojo em que foi proíbido de concorrer a qualquer posição política por ter declamado versos anti-laicidade, que acompanho a situação na Turquia, nomeadamente acompanhei toda a polémica em relação quer ao criacionismo* quer ao véu islâmico, este último um assunto no qual muitas vezes no passado me encontrei sózinha a defender a sua proibição no espaço público (em que público se entende espaço do Estado).

 

De facto, o uso do lenço islâmico foi transformado num símbolo do Islão radical, um braço de ferro entre aqueles que pretendem transformar a Turquia num estado islâmico e os que defendem a laicidade deste país. O primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan esteve na frente dos que pretendiam que a proibição do seu uso nas Universidades e instituições públicas fosse removida, medida que os fundamentalistas islâmicos consideravam o primeiro passo para a restauração de um regime islâmico.

 

Erdogan, que a imprensa europeia louvou e descreveu como muçulmano moderado até muito recentemente, liderou assim as alterações constitucionais que agora o permitem, considerando que o seu uso nas escolas é um sinal de identidade e a assimilação das que não o usam um «crime contra a humanidade».  Erdogan afirmou ainda publicamente que compreendia o atentado contra  os juízes que consideraram inconstitucional o uso do véu islâmico nas escolas. Este ocorreu em Maio de 2006 quando um fanático islâmico semeou o pânico em Ankara, disparando contra os juízes do tribunal adminstrativo de mais alta instância da Turquia, o Conselho de Estado, ferindo 4 e assassinando  com um tiro na cabeça o juiz Mustafa Yucel Ozbilgin. Os juzes atingidos pelo auto-descrito «Soldado de Deus», faziam parte da segunda câmara do tribunal, que trata de assuntos de Educação e tinha sustentado a natureza secular do ensino turco contra toda a pressão dos fundamentalistas islâmicos e do próprio primeiro-ministro.

 

O presidente Ahmet Necdet Sezer, ele próprio um juíz, considerou o atentado terrorista  «um ataque à república laica».Dezenas de milhares de turcos compareceram ao funeral do juíz assassinado e encheram as ruas de Ankara simultaneamente em homenagem ao juíz assassinado em nome de Deus e em defesa da constituição laica do país. As Forças Armadas compareceram em força ao funeral, precedido por uma marcha ao mausoléu de Mustafa Kemal Ataturk, o fundador da Turquia moderna e do estado laico. Na altura, Erdogan criticou o comandante-chefe das Forças Armadas, o general Hilmi Ozkok, por este ter louvado os protestos anti terrorismo islâmico.

 

Também em 2006, a historiadora turca Muazzez Çig, então com 92 anos, foi acusada de «incitamento ao ódio religioso» e  julgada  por ter escrito num livro que o véu foi usado pela primeira vez por sacerdotisas sumérias que iniciavam sexualmente rapazes como parte de rituais de fertilidade. A especialista na civilização suméria e laicista militante foi absolvida mas suspeito que a multidão que na altura se reuniu à porta do tribunal não teria  motivos para celebrar se o julgamento decorresse agora.

 

O recente estudo relatado no IHT confirma, infelizmente, que eu tinha razão nas discussões sobre o mérito e demérito da proibição do uso do véu:

 

The research gives several examples of women being pressured into wearing Islamic-style headscarves and people beaten or reprimanded for smoking or not fasting during Ramadan. Some shop owners feel compelled to close businesses during Friday prayers and many feel pressured to perform the Muslim pilgrimage to Mecca, the report says.

 

*Harun Yahya ou Adnan Oktar, é o  autor do tijolo criacionista enviado ao Paulo e a milhares de outros cientistas e professores um pouco por todo o mundo. Oktar lidera o grupo Bilim Arastirma Vakfi, BAV ( sobre o qual vale a pena ler este artigo indispensável do The Economist). Para além das barbaridades que debita, Oktar destaca-se pela virulência com que persegue todos os que se atrevem a denunciar os completos disparates da sua prosa (e pensamento).

Nomeadamente desde 1998 que Oktar e a sua seita
atacam e ameaçam académicos turcos que ensinam evolucionismo nas suas aulas e conseguiu bloquear o Wordpress e o Google Groups na Turquia, para além de ter censurado uma série de sites de notícias deste país.


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