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Homens da Renascença

O divórcio entre alguns sectores das ciências humanas e as ciências naturais, especialmente as ditas ciências duras, não é um fenómeno recente nem desconhecido e já era apontado em 1956 por Charles Percy Snow num artigo no «New Statesmann», retomado na célebre palestra Rede «As Duas Culturas» e continuado em dois livros com o mesmo nome.

C. P. Snow, que se descrevia «Por formação, ... um cientista; por vocação, um escritor» particularizou várias manifestações da separação entre essas culturas. Richard Dawkins, numa palestra Richard Dimbleby 40 anos depois, intitulada «A Ciência, a Ilusão e o Apetite pelo Deslumbramento», apontava a sintomatologia da maleita:

«Tornou-se quase um lugar comum observar que ninguém ostenta ignorância sobre literatura, mas é socialmente aceitável ostentar ignorância sobre ciência e orgulhosamente clamar incompetência em matemática».

 

As maiores barbaridades científicas podem ser assim debitadas impunemente, e são-no com demasiada frequência, porque ciência não é «cultura»  - e um cientista não é um intelectual. A sintomatologia agudizou-se nos últimos tempos, também por culpa dos cientistas que se deveriam preocupar mais com a divulgação de ciência e em rebater algumas teses pós-modernas, que, na sua vertente mais «dura», negam a existência de um mundo físico objectivo cujas propriedades são passíveis de ser descritas por leis universais  - lembro-me de uma destas luminárias pós modernas que afirmava que as leis da física eram equivalentes às leis do futebol americano ou quejandos -  e reduzem a ciência a uma mera construção social.

 

É neste contexto que entendo as diatribes do Vidal que extrapola absurdos das críticas ao lixo pseudo-científico debitado pelos que, segundo a explosão emocional do Vidal,  «desenharam os pontos cardeais das nossas vidas, para pensarmos a política, a arte e a CIÊNCIA». O facto de alguém considerar que as tolices científicas dos referidos autores são pontos cardeais para se pensar a ciência confirma não só a necessidade de denúncia do nonsense científico que debitam como o que penso estar no cerne desta dissociação cultural - um problema de comunicação a que subjaz um problema de linguagem e de metodologia. Isto é, as ciências naturais seguem regras lógicas muito estritas (e não, a racionalidade e a objectividade subjacentes não são sexistas) em que jogos de palavras ocas não têm lugar.

 

No seu estado embrionário, a ciência era a Ars Scientia, a arte da ciência implícita, por exemplo, nos Contos de Cantuária. Chaucer, para além de um indiscutível conhecimento da poética europeia, - podemos ver claramente traços da influência do «Decameron» de Boccaccio, da «Divina Comédia» de Dante e da lírica de Petrarca assim como dos poemas narrativos franceses - mostra um conhecimento considerável sobre outras «artes» , como sejam medicina, ornitologia, alquimia ou astronomia, embora tenha incluído, numa tradução livre, o aforismo Ars longa, vita brevis no prólogo d'«O Parlamento das Aves»:

The lyf so short, the craft so long to lerne,
Th' assay so hard, so sharp the conquerynge,
A vida tão curta, a arte tão longa de haver,
O ensaio tão duro, a vitória tão vã

Este ecletismo artístico foi aliás o grande impulsionador da revolução do pensamento que permitiu a emancipação da ciência.  No livro «Arte e beleza na estética medieval» (Editorial Presença, 2000), Umberto Eco mostra-nos que a Idade Média, caracterizada por muitos autores como um período marcado por insensibilidade estética, na realidade contempla reflexões que contribuiriam para o Renascimento. Para Eco, o renascimento não é uma negação da cultura medieval, mas apenas de alguns dos seus aspectos, entre eles estéticos, já que «falta à Idade Média uma teoria das belas-artes, uma noção de arte como a concebemos hoje, como produção de obras que têm por objectivo primeiro a fruição estética, com toda a dignidade que esta destinação comporta».

 

A passagem da Idade Média para o Renascimento não é uma transição abrupta, embora os dez séculos medievais estejam tão fortemente enraizados no poder da Igreja que o homem medieval pouco se permitia questionar, em relação à concepção do belo como em relação à concepção da Natureza. Mas, lentamente, o homem redescobre a dignidade perdida, expressa na oração da dignidade do homem (Oratio de Hominis Dignitate) de Picco della Mirandola, sendo esta redescoberta primeiro evidenciada na arte: com Giotto (1266-1337), considerado o primeiro artista moderno, o homem passou a ser a medida de todas as coisas e o corpo humano uma expressão do belo.

 

A arte foi assim a grande impulsionadora da transição cultural renascentista, indissociável dos avanços no pensamento científico e na prática tecnológica que caracterizaram este período. Os pintores e escultores renascentistas investigaram soluções científicas para problemas estéticos, nomeadamente quando tentavam recuperar a perdida técnica representativa da perspectiva.

Muitos artistas foram simultaneamente matemáticos, por exemplo, aquele que alguns autores consideram um dos maiores matemáticos do séc. XV, Piero della Francesca, é mais conhecido como um dos pintores marcantes desta época- de que existe em Portugal, no Museu Nacional de Arte Antiga, o quadro «Santo Agostinho». Piero della Francesca (1416-1492) escreveu um Trattado d'Abaco, um livro sobre perspectiva, De Prospectiva Pingendi e um livro sobre poliedros regulares, De Corporibus Regularibus.

Na realidade, uma das características da Renascença é a multidisciplinaridade em particular a fusão da arte com a ciência. Os desenvolvimentos do desenho, da perspectiva e do estudo das proporções, são marcados pelos trabalhos únicos de Leonardo da Vinci (1452-1519), Albrecht Dürer (1471-1528) e do flamengo Andreas Vesalius (1514-1564), verdadeiros «homens da Renascença».

Albrecht Dürer foi a figura central da renascença alemã e um dos grandes teóricos renascentistas da pintura - de que o Museu Nacional de Arte Antiga possui igualmente uma obra, São Jerónimo. Dürer considerava que «a nova arte deverá basear-se na ciência - em particular na matemática, como a mais exacta, lógica e impressionantemente construtiva das ciências» e «que a Geometria é o verdadeiro fundamento de toda a pintura». Tendo resolvido «ensinar os seus rudimentos e princípios a todos os iniciados na arte» escreveu vários tratados de que se destacam  «Geometria e Perspectiva» , «Tratado sobre as Fortificações» e os «Quatro livros das Proporções do Corpo Humano» (De Symmetria Partium in Rectis Formis Humanorum Corporum), publicado seis meses após sua morte.

Uma das obras de referência de Dürer é o desenho do rinoceronte enviado a D. Manuel I por Afonso de Albuquerque, que por sua vez o recebera como presente do soberano de Cambaia (no norte da Índia), o Sultão Mazafar II. Dürer, que nunca viu o rinoceronte ao vivo, baseou-se em informações de outrem, o que justifica a presença de algumas imprecisões no seu desenho - exageradas ainda mais na xilogravura, que continuou a ser utilizada como modelo para diversas ilustrações de livros de história natural até ao século XIX.

Mas sem dúvida que Leonardo da Vinci, com uma obra que reflecte a harmonização entre a arte e a ciência, é a figura marcante desta época. Poucos serão os nossos leitores que não conhecem a importância da obra de da Vinci, mas quiçá alguns não saibam que esta foi influenciada, entre outros, pelo pai da óptica moderna Alī al-Hasan ibn al-Haṣan ibn al-Haytham, conhecido no Ocidente como Alhazen. O Kitab al-Manazir traduzido em 1270 para latim como «Opticae thesaurus Alhazeni», influenciou ainda cientistas como Roger Bacon, Witelo - cujo trabalho mais importante é o livro Perspectiva - e Johann Kepler.

Foi igualmente Leonardo da Vinci quem iniciou os primeiros estudos anatómicos. Contudo, a descrição exaustiva da anatomia humana foi levada a cabo por Andreas Vesalius cujos desenhos são perfeitos do ponto de vista técnico. Vesalius, o «pai da anatomia moderna», foi autor de várias obras de que se destaca uma espécie de atlas do corpo humano ricamente ilustrado, dividido em sete partes, De Humani Corporis Fabrica, libri septem, concluída em 1543 após inúmeras dissecações de cadáveres humanos.

Com a invenção da imprensa por Gutenberg, a ciência e a arte começaram a ser acessíveis a um número crescente de pessoas. Do século XVI ao XIX, os homens da Renascença como Leonardo, Dürer ou Vesalius inspiraram muitos outros, a arte e a ciência permaneceram intimamente ligadas e a multidisciplinaridade expandiu-se.

 

O início do século XX e a explosão do conhecimento ditou o fim do «homem da Renascença», o indíviduo que detinha conhecimento universal. A especialização do conhecimento ditou igualmente para alguns uma retracção da ciência da esfera da «intelectualidade» o que, como Snow considera nas «Duas Culturas»,  cria uma situação social e cultural que apenas prejudica a própria produção e compreensão do conhecimento. Em particular quando os cientistas que criticam, do ponto de vista da ciência apenas, os disparates pós-modernos são apelidados de anti-intelectuais, fica claro que urge alterar essa situação cultural e social para que a ciência deixe de orbitar excentrica e longinquamente o público e volte a ser a cultura central que foi no período que revolucionou a História.

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