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O espírito do vinho

No post «Um brinde a 2009», um dos nossos leitores pedia-me um «livrito com linguagem e explicação mais acessível para estender os meus conhecimentos» sobre a química do vinho. O meu grupo trabalha com antocianinas há muitos anos (e o filho do nosso PI é o enólogo que produz o vinho que ilustra o post, excelente a propósito) de forma que pensei ser fácil atender ao pedido. No entanto, apesar do tema ser algo fascinante, não consegui encontrar nada que lhe respondesse, isto é, um livro de divulgação científica  que abordasse no que chamo linguagem para o povo as antocianinas e os outros polifenóis do vinho.

 

Este facto confirma o que escrevi n'«Os homens da Renascença», ou seja, que os cientistas se deviam preocupar um pouco mais com divulgação científica, o que neste seria muito fácil já que pelo menos as antocianinas, muitas vezes chamadas os canivetes suiços das plantas tal o número de funções que cumprem, são compostos fascinantes como espero mostrar em posts seguintes. Por outro lado, o vinho é indissociável do nascimento da química.  De facto, a produção de bebidas por fermentação natural de alguns produtos vegetais data dos primórdios da civilização, encontrando-se registos desta actividade há pelo menos 6000 anos.

 

Entre os sumérios, a cerveja era tão apreciada que existia uma deusa da cerveja, Ninkasi, e o código de Hammurabi incluía uma série de disposições sobre a cerveja, nomeadamente prescrevia punições físicas para os taberneiros que a diluissem. Já os egipcios pareciam preferir o vinho, sendo a cerveja - henket ou zythum - a bebida da povo e aparentemente dos sacerdotes de Ámon. De facto, Ramsés III passou a ser conhecido como o faraó-cervejeiro depois de agraciar os referidos sacerdotes com quasi meio milhão de ânforas do precioso líquido.

O agente que eleva os espíritos - embora na realidade seja um depressor - o álcool do léxico do quotidiano, o álcool etílico ou etanol para os químicos, foi descoberto por um alquimista árabe do século VIII, جابر ابن حيان Jābir ibn Hayyān, conhecido pelo seu nome latinizado Geber, o pai da alquimia árabe e um dos precursores da química.

Na realidade, embora a maioria dos historiadores de ciência situe o pré-nascimento da química no século XVII com Robert Boyle e se considere Lavoisier o pai da química, a química, enquanto ciência que procura responder ao como e porquê de transformações da matéria através da respectiva constituição, começa a delinear-se com Geber.

 

Este árabe, cujo trabalho alguns historiadores consideram ser na realidade produto de uma escola e não de uma única pessoa, foi contemporâneo dos califas abássida al-Mansur (754-775) - que transferiu a capital para a recém-criada Bagdad - e Harun ar-Rasid (786-809), no califado do qual Bagdad começou a ser transformada no epicentro da difusão de conhecimento que substituiu Alexandria como centro de saber.

Jābir ou Geber escreveu tratados de filosofia, astronomia, medicina e biologia, mas a sua maior contribuição verificou-se no campo da alquimia.  Na Idade Média, os seus tratados de alquimia, como o Kitab al-Kimya, o Livro da Composição Alquímica, traduzido por Robert de Chester em 1144 e o Kitab as-Sab’een introduzido por Gerard de Cremona nos finais do século XII, influenciaram marcadamente os alquimistas europeus. Geber introduziu a investigação experimental na alquimia, lançando as bases para a química moderna, ao realçar que «A coisa primordial na alquimia é que se pode realizar trabalhos práticos e conduzir experiências», acrescentando que «quem não faz trabalhos práticos nem faz experiências nunca dominará a alquimia».

Jābir escreveu ainda que «Saiba que nós só mencionamos nos nossos livros o que experimentamos, e não tudo que ouvimos, ou o que nos foi dito e tivemos a oportunidade de estudar, o que era conforme a realidade adoptámos, e o que era falso rejeitámos

Assim, embora exista em Geber uma tendência mística incompatível com a ciência, esta é evidenciada nos seus outros escritos e não tanto nos seus tratados de alquimia.

 

A sua procura do al-iksir ou al-aksir - que deu origem a elixir - o «xerion» ou seco que poderia realizar a transformação de um metal em ouro, adveio do facto de ter considerado que os diferentes metais eram constituídos por diferentes proporções de enxofre e mercúrio. Rearranjando essa proporção e as suas qualidades «exteriores» resultaria um metal diferente.

 

De facto, Geber classificou os materiais em três categorias: «espíritos» - que vaporizam ou sublimam sob aquecimento, como a cânfora ou o álcool -, metais e pedras, embora adaptando os arqué de Empédocles, os quatro elementos a que todos os materiais se reduziriam - fogo, terra, água e ar. O alquimista considerou que as qualidades dos arqué - quente, frio, húmido e seco - poderiam ser combinadas determinando as qualidades «exteriores» dos metais enquanto as restantes seriam «interiores» e inatas.

Não é assim de espantar que Geber tenha dado contribuições preciosas para a metalurgia, reconhecidas pelo mestre artesão Vanoccio Biringuccio no seu De la Pirotechnia, publicado em 1540 - embora Biringuccio não soubesse quem as tinha introduzido e referisse «algo muito engenhoso motivo pelo qual devemos ser muito gratos ao filósofo, alquimista, ou seja lá quem tenha sido o seu descobridor».

Os seus 22 tratados alquímicos são devotados ao desenvolvimento de métodos químicos básicos e ao estudo de reacções químicas, abrindo caminho para a quimica moderna ao notar que numa reacção química estão envolvidas quantidades bem determinadas dos reagentes.  Mas importa lembrar que entre os vários instrumentos que inventou para o seu trabalho alquímico, se inclui  o alambique com que destilou o espírito do vinho, o al kohl.

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