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jugular

velhos e feios

os jornalistas padecem de uma espécie de esquizofrenia. se é suposto para se fazer bom jornalismo chegar o mais perto possível dos factos e sentimentos alheios, é uma regra não escrita mas raramente quebrada eximirem-se de tratar jornalisticamente o que lhes está mais próximo.

 

assim, se passam a vida, sobretudo em tempo de crise, a reportar fechos de fábricas e despedimentos colectivos em tudo o que é sítio, quando esses acontecimentos ocorrem no meio ou, pior ainda, no seu meio, tratam-nos como se se passassem a três mil quilómetros de distância, no burkina faso, entre extra-terrestres.

 

vem isto a propósito de um despedimento colectivo a que assisti no meu local de trabalho. para mim, como para a maioria -- todos? -- dos meus colegas, foi a primeira vez. 

 

já fui despedida, já fui ameaçada de despedimento, já vi pessoas -- amigos -- serem despedidas, já vi processos disciplinares. tudo isso está longe de ser bom, mas por mais injusto que seja tem um carácter aparentemente mais unívoco que não se reveste da brutalidade impessoal de um despedimento colectivo, em que ninguém sabe qual vai ser o critério, quem vão ser os escolhidos, quem é o próximo a ser chamado.

 

vi pessoas de quem gosto, pessoas que respeito, boas pessoas -- é pouco original mas é o termo correcto -- a amortecerem nos gestos a ideia terrível de estarem sem emprego. a maioria tem mais de 40 anos e sabe que, como as coisas estão e são, o mais certo é nunca mais ter um trabalho certo, com ordenados redondos, férias pagas e subsídios de férias e de natal. a maioria destas pessoas tem filhos e pessoas a cargo, e, presumo, rendas e empréstimos para pagar e achava, como toda a gente acha, que ao fim de 15 ou 17 anos num sítio se pode contar lá ficar até ao fim, que o azar não havia de ser deles.

 

foi.

 

não sei que dizer a estas pessoas, nem sei como sequer encará-las.

 

'estou velho e feio, estou velho e feio', disse uma elas. não há como reproduzir o tom nem o abandono do olhar, mas é isso, velho e feio -- e a solidão e o frio e o desalento que vem com isso, quando se sai do edifício e atrás de nós fica uma redacção a fazer o jornal do dia, de coração partido mas com o emprego -- ainda.

2 comentários

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    GL 18.01.2009

    "A culpa nem sequer é (só) do Oliveira. É o País, no seu conjunto , que não presta. Nunca prestou, nunca vai prestar."

    A sua frase me fez vir à cabeça um aforismo do escritor brasileiro Monteiro Lobato: "Um país se faz com homens e livros".

    Presta sim. O que há é muita gente no engano.
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