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Que realidade, papá? - II

O espaço de debate do «Que realidade, papá?», assim como o da resposta do João, permitiram uma discussão das mais interessantes que mantive nos últimos tempos. Em particular o comentário do Miguel Dias é quiçá a melhor explicação da minha reacção de rejeição das correntes pós-modernas que considero totalmente obscurantistas.

 

Que diz o Miguel que tanto me horroriza? Bem, imensos disparates, tantos que um post não chega para dirimir a minha indisposição com a coisa. Esta agudiza no parágrafo que adscreve a Darwin todos os males do mundo, um argumento totalmente imbecil e falso, mas, como veremos, totalmente coerente com a «filosofia» que critico, uma «filosofia» do vale tudo, mesmo as maiores falsidades, para se atingir os fins pretendidos, neste caso a defesa de determinados «valores» ideológicos/políticos. Ou, como tão bem explicou o Desidério, uma filosofia assente na duplicidade intelectual, «uma forma particular de insuficiente honestidade intelectual e insuficiente amor à verdade — ou, na versão cínica do pós-modernismo, do perspectivismo e de outras correntes de pensamento, um desprezo pela própria categoria da verdade, substituindo-a desavergonhadamente pela categoria do interesse pessoal, de classe, de grupo, etc. »

 

O argumento que o Miguel acena para apontar como bondosas estas correntes de hipocrisia intelectual é o mesmo argumento esgrimido à exaustão por criacionistas de todos os flavours e religiões para justificar porque razão a sua «micronarrativa» mitológica deve ser ensinada como se de ciência se tratasse. Diz então o Miguel que:

 

Com Darwin a coisa complicou-se ainda mais e não por acaso todas as proposta filosóficas que derivaram para soluções totalitárias no século possuíam uma matriz darwiniana. Assentavam a sua autoridade politica numa plataforma científica.

 

Suponho que com propostas filosóficas que derivaram para soluções totalitárias o Miguel se refira às várias ditaduras que ensombraram (e algumas ensombram ainda) o século XX, em particular os regimes nazi e estalinista. Uma base evolucionista para ambas é não só uma afirmação totalmente falsa como um total tiro no pé. O estafado reductio ad Hitlerum, isto é, o argumento inválido de que a crença «darwinista» de Hitler é a grande culpada pelo Holocausto e pelo regime nazi, é algo que testa ao limite a minha capacidade de indignação, o título que escolhi para um post no De Rerum Natura em que desmonto este disparate - post cuja leitura  recomendo e já agora recomendo ao Miguel a leitura de um post do Desidério que fala dos argumentos de autoridade que o baralham.

 

De igual forma, desmontei no De Rerum Natura outra falácia comum a obscurantistas sortidos, aquela que coloca o ónus do estalinismo em Darwin. Na realidade, a biologia de Darwin foi um anátema durante o regime estalinista. Os cientistas que rejeitavam o Lamarckismo em favor da «reaccionária» selecção natural de Darwin ou da genética - uma pseudo-ciência ao serviço do capitalismo - foram perseguidos, assassinados ou enviados para gulags sortidos. Não é necessário um grande esforço intelectual para descobrir o nome Trofim Denisovich Lysenko ou as suas ideias anti-evolucionistas que apenas começaram a ser rejeitadas na União Soviética em 1964, depois de um discurso de Andrei Sakharov em que este tentava impedir que Nikolai Nuzhdin, um seguidor de Lysenko, fosse eleito membro da Academia Soviética de Ciências.

 

Devo esclarecer que não considero que o facto de Hitler ser criacionista e Estaline anti-evolucionista ou ambos anti-ciência «inconveniente» seja um argumento válido para qualquer coisa, mas já que ele recorreu aos argumentum ad nazium e ad Stalinum para explicar porque razão devemos abandonar o rigor intelectual, a verdade e a razão em prol de realidades alternativas, acho que é conveniente explicar  que aquilo que seria por si só um argumento completamente inválido assenta ainda por cima em afirmações totalmente falsas!

 

Agora resta explicar porque para além de assente em proposições falsas, o péssimo argumento do Miguel é um tiro no pé. De facto, para além dos regimes nazi e estalinista, há mais exemplos que permitem constatar que os pontos altos do anti-intelectualismo, em particular dirigido contra a ciência, correspondem normalmente a regimes totalitários ou pelo menos autoritários. O anti-intelectualismo não é assim um fenómeno novo, na realidade aparece periodicamente em todas as sociedades, normalmente associado a períodos conturbados na história. Para além dos referidos exemplos, importa relembrar que na China os intelectuais foram activamente perseguidos durante a Revolução Cultural. As universidades permaneceram fechadas durante praticamente dez anos. Também o Khmer Rouge de Pol Pot considerava os intelectuais o expoente do mal e devotou-se à tarefa de assassinar todos os intelectuais cambojanos.

 

Normalmente não refiro a Wikipedia mas em relação ao tema em apreço tem uma descrição de anti-intelectualismo de que gosto, não só pela simplicidade e completude, mas também porque explica sucintamente porque me horroriza o discurso anti-ciência de algumas correntes pós-modernas: «O anti-intelectualismo descreve um sentimento de hostilidade ou desconfiança em relação a intelectuais ou aos seus objectos de investigação. Os anti-intelectuais apresentam-se como os paladinos das pessoas comuns e do igualitarismo contra o elitismo, especialmente o elitismo académico. Estes críticos argumentam que as pessoas com maior grau de instrução constituem um grupo social isolado que tende a dominar o discurso político e o ensino superior (a academia)». Se adaptarmos esta última frase à ciência, temos o «sumo» das objecções pós.modernas à ciência que o Miguel reproduz, «O discurso científico tornou-se por isso um discurso de poder» e isso é inadmissível!

Há cerca de um ano, o filósofo Eduardo Subirats dizia a um jornalista do Estado de São Paulo algo que deixo para reflexão:

«O que distingue intelectualmente uma elite não é o poder político ou institucional da classe que seja. O poder institucional define a burocracia, o intelectual orgânico ou a estrela literária. O que distingue uma elite intelectual em um sentido estrito não é o poder político, mas a capacidade de desenvolver uma crítica, de criar uma forma de ver, de pensar e de ser, reside na força reformadora e transformadora das linguagens e a consciência de uma sociedade.
Nesse sentido, hoje vivemos em uma era anti-elitista, um anti-elitismo que se crê democrático, mas na realidade recolhe o pior da herança anti-intelectual dos velhos fascismos
».

 

Subirats resumiu o que penso das críticas pós-modernas à ciência, que são dislates que se afirmam democráticos e muito de esquerda mas que na realidade se confundem com o pior dos velhos fascismos. A confirmá-lo, basta ver que o discurso  oco que desenvolveram para criticar a ciência é tão semelhante ao discurso dos advogados de neo-fascismos sortidos que o João elegeu para contrapor os meus argumentos em defesa da ciência a  propaganda panfletária  de um deles, o Olavo de Carvalho que defende para o Brasil o regresso da ditadura militar.

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