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Como não, senhor bastonário?

A comunicação de más notícias, ao próprio ou a familiares, é dos momentos mais complicados e difíceis da actividade clínica - além de humanamente compreensível, está documentado na literatura médica. Como parte integrante da relação médico-doente é um tema abordado durante a formação pré-clínica - de modo insuficiente, concedo - e muitas (demasiadas) vezes esquecido numa fase posterior da formação do médico.

(Um parêntesis para vos contar uma história que aconteceu comigo há uns anos e que, não sendo exactamente um exemplo do que se está a falar, me parece ilustrar quão necessária é esta formação. Corria o mês de Janeiro e eu estava de urgência psiquiátrica no hospital num dos dias de fim-de-semana. Fui chamada a um Serviço de Medicina na sequência de uma agitação psicomotora grave num dos doentes aí internados. Lá fiz o que tinha a fazer e, cerca de meia hora depois, quando me preparava para voltar ao Serviço de Urgência, uma das enfermeiras do Serviço aproxima-se de mim, com ar de caso, e pergunta-me se eu não me importo de ir atestar um óbito. Sendo o pedido muito pouco habitual perguntei porquê eu que, além de ser a única psiquiatra de urgência para o hospital inteiro, não era médica do Serviço, onde estava o meu colega responsável pela urgência interna (assim chamamos à escala de urgência nos internamentos). A senhora enfermeira baixou o tom de voz e disse-me qualquer coisa parecida com isto "sabe, é a primeira vez que lhe acontece uma destas, assim que percebeu que as manobras de reanimação não tinham resultado desatou a correr pelo corredor, desapareceu e não sabemos dele vai para 45 minutos". Sorri, atestei o óbito e fui procurar o colega. Nem vos conto o estado em que o fui encontrar...)

 

Continuando. Apesar da reconhecida importância prática do "saber comunicar más notícias" e de existirem algumas guidelines nesse sentido, muitas das recomendações não foram empiricamente demonstradas, o que não exclui a existência de informação consistente sobre a mais valia que é o desenvolvimento de "habilidades" ou estratégias de comunicação numa fase precoce da formação pós-graduada. A simulação de entrevistas e o visionamento de material audiovisual, por exemplo,  são meios habitualmente usados cuja eficácia está comprovada, sobretudo se a formação é feita  através de workshops interactivos, de curta duração (um dia). O uso de técnicas psicológicas - como o role-playing - e a discussão de casos clínicos numa equipa que integre um profissional de saúde mental - entre nós efectuada pelos psiquiatras de ligação - podem proporcionar  o desenvolvimento dessas habilidades e melhorar o conhecimento dos clínicos sobre as suas próprias dificuldades relacionais. As evidencias mostram, também, que a atitude do profissional e a capacidade de comunicação desempenham um papel fundamental na maneira como o doente vai enfrentar o seu problema.

 

Vem isto a propósito do artigo "Médicos pedem ajuda para dar más notícias" que acabei de ler no Expresso. Confesso que estou entre o incrédula e o estupefacta com o que li serem as palavras do Dr. Pedro Nunes. Eis o excerto (sublinhados meus):

 

Para o bastonário da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes, na transmissão de más notícias basta haver "honestidade, verticalidade e empatia". Como o humanismo nos estabelecimentos de saúde foi substituído "por uma cultura de gestão e produtividade, não interessa ensinar técnicas de comunicação", defende. "Num contexto ideal, de humanismo, a formação para a transmissão de más notícias seria interessante. No contexto actual, é inútil", resume o bastonário.

 

Que demagogia, que infeliz momento, sobretudo para quem já tantas vezes, a propósito de outros "carnavais", tanto e tão vigorosamente apelou, independentemente das circunstâncias, ao humanismo na (e da) Medicina.

 

Adenda: entretanto, sobre o assunto, li o Bruno Vieira Amaral.

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